Protagonista do maior desastre marítimo da história britânica e talvez o maior da história do mundo, o transatlântico Lancastria foi lançado em 31 de maio de 1920. Na ocasião do desastre, cerca de 7.000 vidas foram ceifadas de uma só vez, embora oficialmente sejam reconhecidos os números de apenas 4.000.
Seja qual for o número exato, a verdade é que essa perda colossal de vidas humanas, expõe os horrores provocados pelas guerras, onde na maioria das vezes, imperam a ambição, a maldade, o ódio e a arrogância humana…
Embora a história do naufrágio do Titanic seja a mais famosa dentre todas e a que até os dias de hoje ainda desperta muita curiosidade nas pessoas, o naufrágio do Lancastria é de longe o que vitimou o maior número de passageiros.
No entanto, na tentativa de abafar os horrores da segunda guerra mundial, sua história foi mantida em sigilo, pois descrever e divulgar o enorme desperdício de vidas na época, não era interessante para a reputação do governo britânico, que censurou a mídia e proibiu os sobreviventes de fararem sobre o assunto, até mesmo com suas esposas e parentes.
Não era uma boa publicidade para o governo, expor a fragilidade de suas tropas que sucumbiram diante da feroz máquina de guerra nazista. A história negra sobre o trágico destino do Lancastria, foi de tal forma escondida, que os fatos terríveis narrados por seus sobreviventes, só começaram a ser expostos décadas depois…
O Lancastria…

O Lancastria navegou em rotas regulares entre Liverpool e Nova Yorque até 1932, sendo posteriormente usado como navio de cruzeiro no Mar Mediterrâneo e no norte da Europa…
Construído para transportar passageiros, o transatlântico de luxo Lancastria, era irmão do RMS Cameronia e foi inicialmente batizado com o nome de Tyrenia. Ele tinha capacidade para transportar 2.200 passageiros em três classes, no entanto, mais tarde foi reformado para duas classes e rebatizado como Lancastria, pois a tripulação e os passageiros reclamavam da dificuldade em pronunciar o nome Tyrenia.
Medindo 176 metros de comprimento e 13 de altura, o RMS Lancastria não era tão poderoso como o RMS Titanic, no entanto, ele era um gigante do mar, com três porões de carga separados. Tal poder de carga despertou o interesse do governo britânico para requisitá-lo durante o conflito europeu. O fato de já ter salvo anteriormente a tripulação do cargueiro belga SS Scheldestad, em 10 de outubro de 1932, provou seu vital valor em tempos de guerra.
O Lancastria estava nas Bahamas quando a segunda Guerra Mundial estourou, em setembro de 1939. A embarcação foi enviada para Nova Yorque para ser reformada e transformada em um navio de tropas. Nessa ocasião, ele foi pintado de cinza e tudo o que acreditavam ser desnecessário foi desativado, como seus salões de bailes e bares.
Um canhão de quatro polegadas foi instalado, dando ao Lancastria, ares de um navio de guerra. Em sua primeira viagem após a reforma, ele foi usado para transportar homens e suprimentos entre o Canadá e o Reino Unido…
O naufrágio…

O capitão do Lancastria, havia sido instruído a ultrapassar a capacidade máxima de passageiros e a levar o maior número de pessoas possível, sem levar em conta, os limites do direito internacional…
O ano era 1940. No início da manhã do dia 17 de junho, três oficiais da RNVR subiram à bordo do navio para perguntar quantas tropas o Lancastria conseguiria levar. O capitão Rudolf Sharp havia trazido 2.653 homens de volta da Noruega e respondeu que conseguiria levar 3.000 com dificuldades.
As tropas foram distribuídas entre o Lancastria e outros navios maiores, contratorpedeiros, rebocadores, barcos de pesca e outras pequenas embarcações. No meio da tarde do dia 17 de junho, o navio já estava lotado. Estima-se que cerca de 4.000 a 9.000 soldados, juntamente com cerca de quarenta refugiados civis, incluindo funcionários da embaixada e funcionários da Fairey Aviation da Bélgica com suas famílias estivessem à bordo.
Os primeiros a embarcar, foram recebidos por homens em elegantes uniformes brancos com botões dourados, que lhes conduziam a seus confortáveis quartos. Enquanto aguardavam que todos fossem acomodados, muitos comiam salsichas, bacon e ovos com torradas quentes na manteiga.
Com a chegada de cada vez mais pessoas, o navio começou a ficar tão apertado, que os oficiais imploraram ao capitão Rudolf Sharp que não permitisse a entrada de mais passageiros, no entanto ele havia sido convencido a encher o navio e os ignorou. As pessoas estavam amontoadas em todos os espaços disponíveis, incluindo os grandes porões de carga.
Todos estavam muito ansiosos para partir, os relatos de outros navios sendo atacados pela Luftwaffe, ainda que não houvessem notícias de nenhum grande desastre, provocava uma grande preocupação nos passageiros que só queriam chegar ao seu destino em segurança.
No entanto, qualquer alívio que aquelas pessoas poderiam ter sentido naquele momento, rapidamente desapareceu…
Por volta das 13h50, o navio vizinho SS Oronsay, sofreu um ataque aéreo e foi atingido por uma bomba alemã, então o capitão do contratorpedeiro britânico HMS Havelock, aconselhou que o Lancastria partisse imediatamente. No entanto, o capitão Rudolf Sharp, não queria iniciar a viagem sem a escolta de um contratorpedeiro, como defesa contra um possível ataque de um submarino e decidiu esperar. Depois de esperar meticulosamente por sua escolta, o Lancastria finalmente começou a sair do cais…
No entanto, cerca de um minuto após sua saída, seis aviões da Luftwaffe surgiram nos céus. A sirene do navio soou! As bombas iniciais erraram o alvo, mas uma série de bombas sucessivas atingiram o Lancaster, era o fim do gigante do mar e dos sonhos de milhares de pessoas que só queriam voltar para a casa.
Estima-se que quatro bombas tenham atingido os porões do Lancastria. Quando o navio começou a inclinar para estibordo, foram dadas ordens para que os homens do convés se movessem para bombordo na tentativa de equilibrá-lo, no entanto, a estratégia causou uma inclinação para bombordo, que não pode mais ser corrigida. Em vinte minutos, o enorme navio sucumbia ao ataque inimigo, levando consigo milhares de vidas….
A embarcação estava equipada com 16 botes salva-vidas vidas e 2.500 coletes, mas muitos dos botes não puderam ser lançados porque foram danificados no bombardeio ou devido a inclinação do barco. O primeiro bote que partiu, estava cheio de mulheres e crianças, mas virou ao pousar na água, então um segundo bote teve que ser abaixado para eles.
Um terceiro bote teve seu fundo abaulado por ser lançado rápido demais. Um grande número de homens que pularam, foram mortos ao bater na lateral do casco ou tiveram o pescoço quebrado por seus coletes salva-vidas no momento do impacto com a água.
A maioria dos que estavam no porão do navio morreram instantaneamente com a explosão da primeira bomba. Muitos outros se afogaram, ou porque não sabiam nadar ou porque ficaram presos. Muitos acabaram sendo empalados pelas lascas de madeira das paredes e pisos.
Um tanque de óleo rasgado vazava, inundando de óleo as águas a sua volta, causando mais mortes dentre aqueles que haviam sobrevido à queda, que sufocavam e engasgavam. Como se não fosse o suficiente, os aviões da Luftwaffe continuavam a atirar naqueles que tentavam nadar até a costa.
Sobreviventes contaram que alguns soldados, cantavam com orgulho os clássicos da guerra, “Roll Out The Barrel” e “There Will Always Be An England”, antes de afundarem com o Lancastria…
Muitos dos corpos e restos mortais, nunca foram recuperados, enquanto outros surgiam nas praias, por dias seguidos. Relatos contam que em algumas vezes, chegavam muitos de uma só vez…
Os sobreviventes…

O Sr. Charles Napier recebeu uma medalha comemorativa, concedida pelo governo escocês em junho de 2008 em reconhecimento aos que estavam à bordo do navio no dia da tragédia…
O número de pessoas que sobreviveram ao inferno da guerra à bordo do Lancastria, é de 2.477. Dentre os sobreviventes estava o capitão Rudolph Sharp que posteriormente, foi designado para comandar o RMS Laconia.
No entanto, a sorte não lhe sorriria duas vezes…
No dia 12 de setembro de 1942, o destino colocaria o capitão Sharp novamente cara a cara com a morte. Sob seu comando, o RMS Laconia que transportava 2.732 passageiros, dentre eles, tripulantes, soldados e prisioneiros de guerra, foi torpedeado e afundado na costa da África Ocidental, custando a vida do experiente capitão…

Outro sobrevivente foi o soldado Tom Woods, que escrevendo para sua namorada em outubro de 1940, relatou o que viveu:
“Eu mergulhei na água, foi muito difícil nadar devido à quantidade de óleo. Depois de nadar por cerca de três quartos de hora, período em que me pediram ajuda várias vezes, estava me sentindo cansado, pensei que não conseguiria nadar mais, meus membros estavam ficando rígidos, pensei na minha casa, lutei e lutei até conseguir virar de costas, então pude ouvir ao longe vozes gritando que haviam sido atingidos, então eu soube que estávamos sendo metralhados…”
No dia 17 de junho de 1998, foi inaugurado um memorial à beira-mar em St Nazaire. Na placa é possível ler as seguintes palavras:
“Em frente a este lugar está o naufrágio do navio de tropas Lancastria, afundado pela ação inimiga em 17 de junho de 1940, enquanto embarcava tropas britânicas e civis durante a evacuação da França. Para a glória de Deus, em memória orgulhosa de mais de 4.000 que morreram e em comemoração ao povo de Saint Nazaire e distritos vizinhos que salvaram muitas vidas, cuidaram dos feridos e deram um enterro cristão às vítimas. Nós não esquecemos. Associação HMT Lancastria, 17 de junho de 1988.”
Em junho de 2008, o primeiro lote de Medalhas Comemorativas HMT Lancastria, que representava o “reconhecimento oficial do governo escocês” pelo desastre do Lancastria, foi entregue aos sobreviventes e familiares das vítimas.
A inscrição na parte de trás da medalha diz:
“Em reconhecimento ao sacrifício final das 4.000 vítimas do pior desastre marítimo da Grã-Bretanha e à resistência dos sobreviventes… Vamos nos lembrar deles…”
Em junho de 2010, foram realizadas cerimônias especiais em Edimburgo e St. Nazaire, para marcar o 70º aniversário do naufrágio. Outras placas e memoriais foram erguidos em honra e homenagens às vítimas, a fim de finalmente dar a elas seu devido reconhecimento e a merecida notoriedade ao naufrágio esquecido por tantos anos…
Pesquisa e texto de Felícia Elen para Superno.