O naufrágio do Sultana…

Um barulho ensurdecedor quebra repentinamente o silêncio da noite, interrompendo o sono dos passageiros do Sultana, que cansados, feridos, doentes e desnutridos, viajavam ansiosos para poder voltar para a casa e reencontrar suas famílias…

Aqueles homens já haviam testemunhado todo tipo de morte e desespero. Assistiram amigos e outros soldados morrerem a tiros em campos de batalha lamacentos. Suportaram campos de prisioneiros confederados, sujos e infestados de doenças na Geórgia, Alabama e Mississippi. 

Eles estavam felizes e aliviados, logo estariam de volta ao seio de suas famílias. No entanto, o destino cruel, resolveu interromper naquela fatídica noite, os sonhos de cerca de 1.800 homens, que não conseguiram sair daquela tragédia com vida, encontrando seu fim nas águas profundas do Mississipe, no maior desastre marítimo da história norte americana…

O ano era 1865. No dia 27 de abril, a explosão de uma caldeira, levaria ao fim a trajetória dos soldados da União, recentemente libertados das prisões confederadas. Muitos deles eram ainda adolescentes, que viajavam amontoados à bordo do navio, quando ele partiu das docas de Vicksburg.

Com permissão legal para transportar apenas 376 passageiros, na data da tragédia, estavam à bordo, mais de 2.300 pessoas. A Guerra Civil havia chegado ao fim e por mais improvável que fosse, eles haviam sobrevivido, então mesmo amontoados e em condições precárias, eles estavam felizes e esperançosos, o terror havia acabado, tudo o que queriam era deixar para trás as lembranças dolorosas e recomeçar suas vidas…

A trágica viagem…

Por dois dias, o barco superlotado,  lamentavelmente balançou para o norte. O derretimento da neve no norte contribuiu para uma das piores enchentes de primavera de que se tem memória… 

Meses antes do desastre, sentado em um campo de prisioneiros do Mississipi, John Clark Ely, um soldado da União de Ohio, imaginava se algum dia conseguiria voltar para casa, enquanto escrevia em seu diário…

“Um dia desses para nós, prisioneiros. Famintos, sujos, sonolentos e péssimos… Será que outro Natal nos encontrará novamente entre amigos e entes queridos?”

Ele estava entre os mais de 2.000 prisioneiros de guerra da União em liberdade condicional. Antes de embarcar na fatídica viagem que lhe custaria a vida, John Ely escreveu em seu diário suas últimas palavras…

“Oh, este é o dia mais brilhante da minha vida para ser lembrado.”

Infelizmente, logo esse brilho se apagaria dos olhos daqueles pobres homens infelizes…

O Sultana passou dois dias viajando rio acima. Em alguns lugares, o rio transbordou das margens e se espalhou por três milhas de largura. As árvores ao longo da margem do rio estavam quase completamente cobertas, até que apenas suas copas estavam visíveis, acima da águas poderosas e turbulentas.

O Sultana parou em Memphis em 26 de abril e continuou para o norte naquela noite. Por volta das 2h00 da manhã, sete milhas rio acima de Memphis, uma caldeira explodiu, levando mais outras duas a explodirem sucessivamente, provocando um verdadeiro inferno no mar, penalizando homens que já acumulavam tanto sofrimento…

Alguns foram mortos instantaneamente pela explosão. Outros despertaram atordoados, sendo lançados ao mar, sem fazer ideia do que estava acontecendo. Em um minuto eles dormiam, no outro estavam desesperados, lutando por suas vidas nas águas frias do rio Mississippi.

Enquanto alguns passageiros queimavam no barco, outros se agarravam aos escombros no rio, ou a cavalos e mulas que escaparam do barco, na esperança de chegar à costa. Enquanto isso, muitos precisavam escolher, entre permanecer à bordo do inferno flutuante, ou pular no rio e correr o risco de morrerem afogados, pois muitos deles não sabiam nadar.

Os gritos e gemidos agonizantes dos feridos desesperados, ecoavam pela madrugada, em uma aterrorizante trilha sonora, digna de um filme de terror. Era de partir o coração… O odor da carne humana queimada que se espalhava pelo ar, era simplesmente nauseante e indescritível…

Um soldado de Michigan que sobreviveu ao terror da guerra e ao inferno do Sultana, descreveu o que viu naquela fatídica noite:

“Foi tudo uma grande confusão! Homens corajosos corriam para lá e para cá na agonia do medo, alguns proferindo uma linguagem mais profana e outros entregando seus espíritos ao grande Governante do Universo.”

Outro soldado de Ohio declarou:

“Alguns morreram na explosão, outos deitados no fundo do barco, sendo pisoteados, enquanto alguns choravam e rezavam. Muitos praguejavam enquanto outros cantavam. Essa visão eu nunca vou esquecer, muitas vezes vejo isso durante o sono e acordo com um sobressalto.”

O Sultana…

O Sultana envolvido na tragédia era o quinto barco a vapor a levar o nome. Lançado em 3 de janeiro de 1863, a embarcação media 79 metros de comprimento e 13 metros de largura. Suas duas rodas de pás laterais eram acionadas por quatro caldeiras de tubos de fogo…

Construído em madeira no ano de 1863 por John Litherbury Boatyard, em Ohio, o Sultana foi planejado para o comércio de algodão do baixo Mississipi . O navio pesava 1.719 toneladas e normalmente carregava uma tripulação de apenas oitenta e cinco pessoas.

Por dois anos, ele fez uma rota regular entre St. Louis e Nova Orleans e foi frequentemente contratado para transportar tropas durante a Guerra Civil Americana. Com a explosão de três das quatro caldeiras, o Sultana afundou perto de Memphis, no Tennessee.

Criadas em 1848, as caldeiras usadas no Sultana podiam gerar o dobro de vapor por carga de combustível, do que as caldeiras convencionais. Cada caldeira de tubo de fogo tinha 5,5 metros de comprimento e 120 centímetros de diâmetro, contendo vinte e quatro chaminés de 13 centímetros.

Com o poder das caldeiras, veio também o risco. Os níveis de água nos tubos de fogo tinham que ser cuidadosamente mantidos em todos os momentos. As áreas entre as muitas chaminés entupiam facilmente, especialmente porque a água suja do rio carregava muitos sedimentos e era difícil de limpar. 

A queda dos níveis de água, podia causar pontos quentes que levavam à fadiga do metal, aumentando significativamente o risco de explosão. Como a maioria dos barcos a vapor da época eram feitos de madeira coberta com tinta e verniz, os incêndios eram uma preocupação significativa…

A tragédia…

Monumento erguido em homenagem às vítimas do Sultana, localizado no Cemitério Mount Olive, perto de Maryville Pike, desde 1916.

Ganância, incompetência, imprudência e má sorte… Naquela trágica noite, todos esses elementos desempenharam seu papel…

No dia 13 de abril de 1865, O Sultana deixou St. Luis com destino a Nova Orleans, sob o comando do capitão James Cass Mason. Na manhã de 15 de abril, ele foi amarrado no Cairo, em Illinois, quando chegou a notícia de que o presidente dos EUA , Abraham Lincoln, havia sido baleado em Washington.

Imediatamente, o capitão Mason agarrou uma braçada de jornais do Cairo e dirigiu-se para o sul para espalhar a notícia, sabendo que a comunicação telegráfica com os estados do sul havia sido quase totalmente cortada por causa da recém terminada Guerra Civil Americana.

O problema começou no momento em que o barco a vapor atracou em Vicksburg. Uma de suas caldeiras teve um vazamento no caminho de Nova Orleans e precisava de reparos. O capitão Mason, trouxe um mecânico que queria substituir uma costura rompida. Esse trabalho poderia levar dias e custar tempo e dinheiro a Mason, então ele insistiu que o mecânico consertasse apressadamente a caldeira com vazamento…

A oferta do governo de pagar cinco dólares ou mais por homem, para transportar os prisioneiros de guerra da União de volta ao norte depois da guerra, significava muito dinheiro para capitães de barcos a vapor como Mason. Também semeou as sementes da corrupção, pois os capitães dos barcos, geralmente ofereciam propinas ou outros subornos aos oficiais do Exército, dispostos a carregar seus navios com o maior número possível de soldados.

Essa foi a principal razão pela qual o Sultana carregava seis vezes mais o número de passageiros permitidos para a sua capacidade. Cada canto do barco estava ocupado por soldados, que estavam tão apertados, que muitos não conseguiam encontrar um lugar para dormir.

Meses seguidos após a tragédia, os corpos das vítimas, continuaram a emergir rio abaixo. Muitos jamais foram recuperados. O capitão Mason, estava entre as vítimas…

A Maldição do Sultana…

Lápide de John Clark Ely, o soldado de Ohio que sonhava em passar o Natal em casa.

As cicatrizes das feridas, queimaduras e lesões físicas que marcaram seus corpos naquela noite, seriam mais brandas que suas feridas psicológicas…

Apesar das alegações de sabotagem confederada, um inquérito do governo determinou que a pouca água nas caldeiras, juntamente com os reparos de má qualidade e a tensão da carga pesada, provavelmente contribuíram para o desastre. 

Houve investigações e tribunais militares, mas ninguém foi totalmente responsabilizado pela pior calamidade marítima da América. Para aqueles que sobreviveram à explosão da Sultana, o destino ainda lhes reservaria alguns dissabores…

Embora alguns tenham conseguido superar a tragédia e seguir com suas vidas, para outros, ela jamais poderia ser esquecida. Como uma verdadeira maldição, os fantasmas daquela trágica noite, continuariam a assombrar e a perseguir aqueles que por duas vezes, haviam conseguido driblar as emboscadas da morte…

Muitos dos que sobreviveram ao inferno, de algum modo, ficaram presos naquele evento para sempre. Ainda que seus corpos tenham conseguido vencer os abrolhos do destino, suas mentes seriam para sempre atormentadas pela “maldição do Sultana”. As lembranças dolorosas e inquietantes, levaram muitos a cair no alcoolismo e na depressão. 

Os sobreviventes…

Imagem de alguns dos sobreviventes do Sultana.

Os sobreviventes do Sultana de diferentes partes do país, passaram a participar de encontros anuais no aniversário da catástrofe. Aos poucos, seu número foi diminuindo. Em 1929, apenas dois homens compareceram à reunião.

O último sobrevivente do norte, soldado Jordan Barr do 15º Regimento de Infantaria Voluntária de Michigan, morreu em 16 de maio de 1938, aos 93 anos. O último dos sobreviventes do sul e último sobrevivente geral, Charles M. Eldridge do 3ª Regimento de Cavalaria do Tennessee, morreu em sua casa aos noventa e seis anos, no dia 8 de setembro de 1941, mais de 76 anos após o desastre…

Em 2015, no 150º aniversário do desastre, um Museu do Desastre Sultana interino foi inaugurado em Marion, no Arkansas, a cidade mais próxima dos restos enterrados do barco a vapor. Em destaque no museu estão algumas relíquias do Sultana , como placas de agitação da fornalha do barco, tijolos da fornalha, alguns pedaços de madeira e algumas pequenas peças de metal. 

O museu também apresenta muitos artefatos da Sultana Survivor’s Association, bem como uma réplica modelo do barco de quatorze pés. Uma parede é decorada com os nomes de todos os soldados, tripulantes e passageiros do barco…

Os restos mortais de muitos dos jovens que estavam à bordo do Sultana, descansam no Cemitério Nacional de Memphis sob simples lápides brancas gravadas com as palavras:

“Soldado Desconhecido dos EUA”.

Em uma das sepulturas, em especial, é possível ver a identificação de John Clark Ely, o soldado de Ohio que não conseguiu realizar o sonho de voltar para a casa em segurança e nunca viu seu próximo Natal…

Pesquisa e texto de Felícia Elen para Superno.


Publicado por feliciaellenbueno

Musicista (cantora, compositora e produtora musical), escritora, filósofa, blogueira, artesã, jardinista, polímata, autodidata. Amante das artes, da natureza e dos animais.

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