Tio Akira… (Relato 4)

Quando se é criança, quando se é inocente, todos que convivem ao seu redor são pessoas boas… A pureza da criança é algo tão sublime que a própria Escritura Sagrada define as crianças e quem se assemelha a elas, como as legítimas detentoras do Reino do Céu…
Eu fui uma criança inocente, para mim, muitos que conviviam ao meu lado eram pessoas boas… Ledo engano… Ledo engano…

Sou filho de pais batalhadores, bisneto de imigrantes japoneses, eu vi todo o legado de muitas conquistas de minha família sucumbir à inveja, ganância, à cobiça, a maldade e a maldição de um “ex-funcionário” de confiança da nossa família…

Desde muito novo eu via o “entra e sai” de funcionários na sede de nossa fazenda e muita correria sempre, principalmente quando apareciam os problemas, e o “dito cujo” sempre estava lá… Envolvido diretamente… Sempre…

Vou chamar o dito cujo de ” Tio Akira”… A fazenda pertencia ao meu avô (pai de minha mãe), e após anos de muito trabalho e suor, pela idade acentuada, ele resolveu passar a administração das terras aos meus pais que ficaram encarregados em gerir todos os setores e processos do ciclo canavieiro…

Tio Akira era funcionário antigo, parente, era primo de algum grau do meu avô e nunca aceitou que uma mulher (minha mãe) administrasse uma fazenda canavieira em pleno auge do Programa Pró Álcool nos anos 80… Não poderia ser ela, a herdeira única por direito… Não aceitava… Jamais ela… Nem meu Pai…Teria que ser ele… Só ele… Exclusivamente ele…

Akira era mau caráter, sempre deu problema, desde a difícil convivência com demais profissionais da fazenda, confusão com outros colonos, problemas operacionais foram muitos, diversos, vários… Mas ele era parente do dono, tinha as “costas quentes”… Enfim era o pior ser humano, mas para mim, criança na época, nem imaginava nada… Sempre achei que ele era um “tio do bem” que me levava para a mina d’água para pescar lambari…

Em uma dessas idas, fui pescar com ele, num local que ele falava que era a “ceva” particular dele… Local diferente… Muito longe… Passei por dentro de um brejo sem fim, afundei a perna até o joelho, área de difícil locomoção, no meio do caminho até quis voltar…

O caminho todo era muito sujo, cheirava mal, tinha mosquitos, mas Tio Akira garantiu que chegando na Ceva dele, encontraria as melhores tilápias, as grandes, facilmente se convence uma criança… Fui convencido…

Tínhamos saído bem cedo, tava preocupado pois na pressa não tinha avisado meus pais… Tio Akira disse que não precisava… Como assim não precisava ??? Claro que precisava !!! Mas não avisamos… Inocente que era, claro que confiaria no Tio Akira… Que besteira!… Eu fui…

O local da ceva ficava ao pé de uma árvore podre, tronco velho, galhos secos com pouca copa e pouca sombra, mas estava nublado, céu cinza, tempo feio, mas o que me espantava era aquela árvore, grande, meio tombada, sinistra, que mesmo seco e podre, tinha um tronco seco que me parecia muito úmido dentro… Esse detalhe chamou minha atenção… Uma árvore morta mas que de certa forma tinha vida…

Já estava com a varinha dentro da água, Tio Akira disse que voltaria para a Sede buscar a garrafa de água ou outra coisa, que hoje, passados muitos anos eu não me lembro, mas o certo é que ele me deixou lá e se foi… Fiquei sozinho… Eu e aquela árvore sinistra…

O tempo passou… Já estava cansado, não tinha pego nenhum peixe, nenhum lambari, nada, já tava bem picado de mosquito, tava com fome e preocupado, pois não tinha avisado ninguém… Ninguém sabia onde eu estava… Ninguém…

Resolvi voltar, fiquei pensando no que falaria para meus pais, pensando na reação deles por ter “sumido” , saído sem avisar e ter ido pra bem longe… Contornei aquela árvore sinistra e vi que na parte de trás dela, na parte que não era oca, perto das raizes, que não estavam tão podres quanto à parte da frente, tinha um pouco de um pó, um farelo amarelo amarronzado com formigas ao redor, a terra ao redor tava meio fofa, mexida, parecia que algo estava enterrada lá há pouco tempo…

Chutei a terra, mexi com o pé mesmo, senti algo sólido, parecia uma caixinha de madeira ou algo similar, lembro que me arrepiei na hora que toquei a caixinha com o pé, não cavei mais, mesmo estando curioso fiquei com medo, não sabia porque, mas tava amedrontado… Nisso, eu ouvi alguém me chamar… Era uma voz diferente… Não era a voz do Tio Akira… Pensei na hora, no tamanho da bronca que iria levar dos meus pais pois já estavam me procurando…

Saí de lá correndo, dei a volta por fora do brejo, me perdi um pouco no retorno, mas me direcionei pelos gritos de longe me chamando… Aliviado, enfim cheguei na sede, todo arranhado, coçando, sem ter pego nenhum peixe, cansado, bem cansado, mas estava em paz, meu estado de espírito que estava angustiado, repentinamente encontrou paz naquele local, um oasis pra mim, do nada encontrei um refrigério da alma, só ia levar uma bronca de meus pais, mas tava tudo certo, tranquilo, eu merecia, então só queria agradecer a pessoa que estava me procurando…

Cada vez que me chamava, me dava o direcionamento para o lado certo que deveria andar… Meus pais estavam trancados no escritório, nem tinham dado a minha falta, não vi Tio Akira, e ufa !!! Parecia tudo normal, tava tudo certo… Estranho… Mas quem tava me chamando se ninguém tinha sentido a minha falta ? Estranho…

Me chamaram pelo meu nome muitas vezes, inclusive me chamaram pelo meu nome em japonês… Estranho…
Me guiei única e exclusivamente, direcionado pelos chamados… Todos ocupados na correria da Sede, ninguém percebeu minha saída, ninguém tava me procurando… Estranho…

Na teoria ninguém me chamou… Na prática, a voz me direcionou a chegar são e salvo no refúgio… Não é estranho ??? O que foi tudo isso ? E o que havia naquela Caixinha enterrada ? Qual o significado daquela árvore sinistra ?…

Essa é uma história real, contada por Cláudio T. Suzuki para o blog Superno.

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Publicado por feliciaellenbueno

Musicista (cantora, compositora e produtora musical), escritora, filósofa, blogueira, artesã, jardinista, polímata, autodidata. Amante das artes, da natureza e dos animais.

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