A árvore sinistra… (Relato 5)

Aquela árvore sinistra ficava bem rente à margem do açude, sua copa era bem rala, poucas folhas e galhos todos secos… Seu tronco também estava ressecado, muito ressecado e meio podre por fora. Tinha um rachado enorme na frente, uma abertura razoável que ia do meio do tronco até o chão… De lá partiam raízes firmes que praticamente adentravam à água…

Não conseguia entender como uma árvore com tanta água à sua disposição estava morrendo… Como ela poderia estar tão seca com tanta água banhando suas raízes ??? E na parte de trás do tronco, a terra fofa, mexida, parecia que tinha uma farofa espalhada ao redor, muitas formigas negras e aquela caixinha misteriosa enterrada ??? Quem enterrou ela e porque ???

Queria ser adulto nessa hora, adulto entende tudo, adulto entende as coisas complexas e complicadas da vida, crianças são inocentes, crianças não enxergam a maldade… E qual o limite da maldade ??? O quão mal pode ser o ser humano ???…

Enfim, já estava de volta à Sede, barra limpa, nenhuma bronca por eu ter desaparecido, ninguém estava me procurando, então nem comentei com ninguém sobre as vozes que me chamavam, me direcionavam e me guiaram ao retorno seguro, são e salvo do açude até a Sede…

As vozes que me chamavam pelo nome, eu ouvi muitas vezes, eu ouvi até chamarem meu nome em japonês… Que Doidera… Há pouco estava perdido, aflito entre cercas de arame farpado, pastos, bambuzais, mosquitos, carreadores, tava desviando daquele brejo fedorento…

À questão de horas eu estava muito angustiado, estava ao lado daquela árvore sinistra, estava perdido, agora sentia uma tranquilidade, uma paz, uma serenidade, um alivio. Para uma criança, nada como estar perto dos pais…

Nesse dia não vi mais o tio Akira, ele sumiu… Meus pais me chamaram e viemos embora. Cochilei no carro, cheguei a sonhar com aquela caixinha no pé da árvore sinistra e até em sonho me assustei quando toquei nela com o pé… O que ela estaria fazendo enterrada ali ? O que teria nela ?

Passamos em vários lugares antes de irmos para a casa, fomos numa oficina, meu pai comprou peças para o trator, passamos no mercado, demoramos muito pra chegar em casa mas assim que chegamos… Meu vô estava na calçada aflito, andando de um lado à outro e a primeira coisa que ele perguntou, era se eu estava bem…

Se tava tudo certo comigo… Se não tinha acontecido nada no sítio, pois de repente bateu uma aflição muito grande nele, um aperto forte no coração, uma angustia tão grande e tão forte, que ele impotente, sem poder fazer nada, desesperado pela distância, só podia rezar e clamar a Deus pelo meu nome, chamando e pedindo toda proteção divina pra mim… As vozes me guiando… As vozes… As vozes…

Meu Vô sempre me chamava em casa pelo meu nome em japonês… Agora entendi… Tudo fez sentido… Ele me abraçou forte como nunca… Ali naquele momento eu senti o maior amor que uma pessoa pode sentir na vida, o amor mais puro, o amor mais verdadeiro, o amor de Vô super protetor pelo Neto…

Entendi como Deus trabalha nos bastidores de nossas vidas e como ele cuida dos seus filhos, avôs, netos… Deus é PAI !!! Entramos…

O Telefone tocou, minha mãe atendeu e preocupada chamou meu pai para irem correndo para a Santa Casa imediatamente… Um funcionário da Fazenda estava no Pronto Socorro… Internado já em estado crítico… Fora picado por uma cobra venenosa… Ele estava descansando no açude… Ele estava deitado no pé daquela árvore sinistra…

Essa é uma história real, contada por Cláudio T. Suzuki para o blog Superno.

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Publicado por feliciaellenbueno

Musicista (cantora, compositora e produtora musical), escritora, filósofa, blogueira, artesã, jardinista, polímata, autodidata. Amante das artes, da natureza e dos animais.

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