A despedida…

Eu tinha vinte e três anos quando conheci o Rômulo (nome fictício). Fomos apresentados por uma amiga em comum e foi amor à primeira vista. Começamos a namorar e dois meses depois já estávamos morando juntos em um apartamento alugado.

Escolhemos um lugar próximo ao trabalho do Rômulo, isso nos ajudaria a economizar com o transporte. Foram os dois primeiros anos mais felizes das nossas vidas. Éramos muito unidos, fazíamos tudo o que podíamos juntos, ele era meu melhor amigo.

Um dia, voltando para casa da academia, encontrei uma gatinha filhote na entrada do nosso prédio. Era a coisinha mais fofa que eu já tinha visto nessa vida. Ela era uma bebezinha peludinha com uma pelagem que misturava tons bege, chocolate e branco com olhos azuis brilhantes. Eu não pensei duas vezes, levei a gatinha para a casa e dei a ela o nome de Pérola. O Rômulo amou a gatinha.

No dia seguinte estávamos os três em um Pet Shop comprando o enxovalzinho da Pérola, caminha, brinquedinhos, ração… A Pérola se tornou a alegria da nossa casa. Como havíamos decidido que não teríamos filhos, a chegada da Pérola deixou nossa família completa.

O tempo passou e o Rômulo não estava mais satisfeito com seu emprego. Ele trabalhava muito e ganhava pouco e isso o deixava triste porque ele sonhava em comprar nossa casa própria e em ter um carro melhor, o que nós dois ganhávamos, só dava para pagar as contas. Então ele decidiu se arriscar e pediu demissão do emprego para abrir um negócio próprio. Estávamos felizes e empolgados com a ideia de ter nosso próprio negócio.

Dois meses após o Rômulo deixar o emprego, já estávamos com as portas da nossa lanchonete abertas. Alugamos uma lojinha, compramos um balcão, alguns amigos e parentes nos ajudaram com uma coisinha aqui, outra ali e aos poucos vimos nosso sonho se tornar realidade.

Eu ainda estava trabalhando, então só conseguia ajudar o Rômulo na lanchonete aos fins de semana. No entanto, estávamos sendo abençoados e o movimento crescia a cada dia, ao ponto de sentirmos a necessidade de contratar um funcionário.

Colocamos um anúncio na Internet e algumas pessoas responderam. Decidimos ficar com uma moça que parecia responsável. Uma jovem de baixa estatura e longos cabelos negros por nome de Amanda (nome fictício).

No começo, a Amanda parecia muito esforçada, chegamos realmente a acreditar que havíamos feito uma ótima escolha. No entanto, os dias foram se passando, e comecei a notar comportamentos estranhos na Amanda. Eu via a maneira “diferente” que ela olhava para o Rômulo, mas eu me policiava para não permitir que pensamentos ruins dominassem minha mente, eu não queria bancar a ciumenta, mas algo realmente começou a me incomodar muito…

Foi então que uma amiga também notou e me alertou, não era uma boa ideia deixar uma moça solteira trabalhar sozinha com meu marido enquanto eu estava fora. Então, criei coragem e finalmente pedi demissão do emprego para poder me dedicar inteiramente a lanchonete.

A Amanda não ficou nada feliz com a notícia e começou a agir de forma ainda mais estranha, eu diria até bem hostil comigo. Ela começou a me ignorar, eu falava com ela, pedia algo e ela simplesmente não se movia, quando eu reclamava, ela dizia não ter ouvido. Certa vez, um casaco do Rômulo desapareceu. Ele jurava ter ido para a loja com esse casaco, mas ele simplesmente evaporou. Procuramos por toda parte e nada de encontrar o casaco.

E não era só isso, com o passar do tempo, meu marido também começou a ficar estranho, eu falava com ele, perguntava se algo estava acontecendo, mas ele nem conseguia me olhar nos olhos. Aquilo começou a me incomodar, eu tinha certeza que alguma coisa estava acontecendo e eu precisava descobrir o que era.

Um dia, ao voltar para a casa, eu o pressionei, não dei a ele outra alternativa que não fosse contar a verdade. Então, naquela noite, o castelo que eu havia construído desabou. O Rômulo confessou ter me traído com a Amanda. Ele disse que ela o assediava desde que começou a trabalhar ali, mas que de início ele não levou a sério suas investidas, até que depois de um tempo ele passou a se sentir estranho e mesmo não sentindo nenhuma atração por ela, em uma tarde, ele fechou a loja e os dois foram para um Motel. Lá ele ficou com a Amanda, sem que eu sequer desconfiasse.

Ele disse que foi apenas uma única vez e que ele havia se arrependido totalmente, mas não podia demití-la, pois ela ameaçava contar tudo para mim e que se ele não ficasse com ela, não ficaria com mais ninguém. Ela disse que era “bruxa” e usaria magia para destruir nosso relacionamento.

Eu fiquei em choque, arrasada! Nesse dia eu pedi que ele saísse da minha casa. A loja ficou fechada. O Rômulo me enviava mensagens pedindo perdão, mas eu as ignorava, eu estava destruída. No entanto, uma semana depois tivemos que ir até a loja, para desmontar tudo e cada um seguir seu caminho.

Enquanto estávamos na loja, a tal da Amanda apareceu na maior cara de pau. Meu sangue ferveu, eu quis partir para cima dela, mas o Rômulo não deixou que eu fizesse uma besteira. Ela foi debochada, zombou de mim e tentou me humilhar. Óbviamente eu a demiti, mas ela foi embora com um sorriso debochado no rosto, e nos ameaçou, disse que iríamos nos arrepender. Aquela Amanda de antes, aparentemente doce e gentil não existia mais, a que estava na minha frente parecia um verdadeiro demônio, eu vi o ódio em seus olhos.

Depois de fechar a loja, me isolei em meu apartamento, não queria ver ou falar com ninguém. Bloqueei o Rômulo para não receber mais mensagens, foram dias muito difíceis. Me afundei na depressão, não queria reagir. Minha única companhia era minha doce gatinha Pérola.

Dias depois eu estava em mil pedaços, perdi peso e minha mãe me convenceu a ficar uns dias na casa dela. Cerca de uns três meses depois, enquanto eu ainda estava na casa da minha mãe, o Rômulo apareceu, conversamos e por fim, decidi dar uma nova chance para ele, embora eu não pudesse esquecer o ocorrido.

Voltamos para nosso apartamento. Seria preciso começar tudo de novo, eu não queria mais abrir a lanchonete, iríamos precisar de um plano “B”. No entanto, recomeçar não seria uma tarefa nada fácil, nós jamais poderíamos imaginar o que viria a seguir…

Um dia depois de voltar ao apartamento, coisas estranhas começaram a acontecer. A Pérola parecia estar muito incomodada, as vezes ficava parada olhando para o teto como se estivesse vendo algo. Com o passar dos dias, ela passou a rosnar sempre que se aproximava da porta do meu quarto. Algo a estava assustando. Ela amava dormir comigo na minha cama, mas depois que voltamos, ela não queria mais entrar no quarto de jeito nenhum.

Em uma tarde, eu estava limpando a casa quando vi a Pérola ser arremeçada longe! Ela estava dormindo quietinha em cima do sofá, quando foi literalmente jogada do outro lado da sala. Aquilo me deixou em pânico!

A Pérola não era a única a sentir coisas estranhas. Eu sabia que havia algo errado. O clima não era mais o mesmo, eu sentia arrepios o tempo todo, me assustava com facilidade e passei a ter terrores noturnos. Em uma dessas ocasiões, eu acordei no meio da noite e vi uma criatura parada ao lado da minha janela. Essa figura tinha forma humana, mas era feita de fumaça. Logo essa fumaça foi se dissipando até que finalmente desapareceu.

Contei o que vi para o Rômulo, ele não apenas acreditou em mim como me contou que também estava tendo pesadelos, então decidimos chamar um pastor para abençoar o apartamento.

O Rômulo chamou um amigo de infância, que por sua vez, trouxe com ele um jovem rapaz, magro de pele negra e sorriso cativante que segundo ele, era pastor experiente no assunto, apesar da pouca idade. Os dois começaram a orar e a ungir o apartamento.

No entanto, quando chegaram ao meu quarto, o rapaz que veio com o amigo do Rômulo parou na porta por alguns instantes. Sua expressão mudou e ele parecia bem sério, como se ele estivesse vendo algo que não podíamos ver. Então ele ungiu as portas rapidamente, se virou para nós e disse:

“Vocês precisam sair desse apartamento…”

Perguntamos o porquê, mas o rapaz insistia, em dizer apenas que nós não estávamos preparados para lidar com “aquele problema” e que o melhor a fazer, era sair do apartamento.

Logo em seguida eles foram embora apressadamente e eu fiquei muito chateada, achei que eles fossem nos ajudar. O Rômulo ficou muito impressionado com o que o rapaz tinha dito, ele dizia que o amigo dele era uma pessoa muito séria e honesta e que se o outro rapaz que veio com ele, viu algo em nosso quarto, o melhor a se fazer era mesmo sair do apartamento.

Nos dias seguintes, o Rômulo começou a procurar um lugar para nos mudarmos. No entanto, nós não tínhamos ideia de que não seria possível mudar o que já estava escrito…

A Pérola adoeceu. Desde o dia em que eu a vi ser arremeçada, ela parou de comer, só ficava nos cantos tristinha. Eu a levei ao veterinário mas ninguém descobria o que ela tinha. Ela fazia exames que não mostravam nada e ela cada vez mais doente. Até que desesperada e com medo de perdê-la, decidi tirá-la do apartamento e a levei para a casa da minha mãe. Minha doce Pérola morreu três dias depois…

A morte da Pérola foi um grande golpe para mim, minha gatinha estava em perfeita saúde antes de eu voltar para aquele apartamento. Fiquei tão arrasada que não queria mais levantar da cama.

Um dia, pouco depois da morte da Pérola, eu estava sozinha na cozinha encaixotando algumas coisas para a mudança, quando notei alguém passando atrás de mim. Meu coração gelou, não tinha sequer uma parte do meu corpo que não estivesse arrepiada e tremendo. Corri para ver o que era e vi esse vulto entrando no meu quarto.

Corri até o quarto e vi uma mulher, totalmente nua, me olhando e sorrindo, era a Amanda! Ela me olhava com um olhar sombrio, como se estivesse zombando de mim. Eu me perguntei, como aquela mulher tinha conseguido entrar no meu apartamento?

Mas aquilo era ainda pior do que eu imaginava. Eu estava tão nervosa que não percebi a princípio, que a imagem não parecia ser uma pessoa real, de carne e osso, mas era meio transparente e desapareceu na minha frente, como se eu estivesse vendo coisas, mas eu sei que eu não estava louca, era a Amanda, tenho certeza, ou pelo menos alguma coisa se passando por ela.

Eu estava horrorizada, eu não queria mais dormir naquele apartamento, mas eu precisava terminar de organizar a mudança. Naquela mesma noite, acordei com uma voz chamando meu nome. Assustada, notei que o Rômulo não estava na cama. Me levantei e saí procurando por ele em todos os cômodos. Eu o encontrei na sacada, parado, de frente para a grade, no meio da escuridão.

Quando toquei nele, ele levou um susto, era como se ele tivesse acordado, disse não saber como tinha chegado até ali, ele só se lembrava da hora em que foi dormir. A essas alturas, nós já sabíamos que estávamos correndo um risco enorme se continuássemos ali. Em dois dias conseguimos retirar todos os nossos pertences do apartamento e alugamos uma casa um outro bairro, queríamos deixar tudo aquilo para trás.

Estávamos felizes e aliviados. Com o passar dos dias, fomos deixando as preocupações para trás, estávamos mais unidos do que nunca. Em uma tarde, saímos para almoçar, fizemos compras, passamos o dia todo juntos, coisa que não fazíamos há muito tempo. No entanto, me lembrei que ainda não havíamos entregue as chaves do apartamento. O Rômulo então me deixou em casa, pegou as chaves e saiu para entregá-las na imobiliária, mal sabíamos o que o destino estava a nos reservar…

Quando ele ainda estava na porta eu o chamei de volta e lhe dei um longo e apertado abraço. Na hora, eu não entendi porque eu não queria soltá-lo, de repente, meu coração ficou apertado, eu queria pedir para ele ficar, mas eu sabia que precisava deixá-lo ir, eu não podia imaginar que aquela seria a última vez que eu o veria com vida, que aquele abraço, era uma despedida…

Horas depois, nada do Rômulo voltar. Liguei para ele mas ele não atendia. Liguei para a família dele, amigos próximos e ninguém sabia dele. Até que um amigo da família me ligou, dizendo que iria até a minha casa. Eu estranhei e me desesperei, eu tinha certeza que alguma coisa muito ruim tinha acontecido. Nesse dia eu recebi a pior notícia da minha vida…

Perdi meu amor no dia 25/02/2014. O Rômulo se envolveu em um acidente. Disseram que ele perdeu o controle do carro e saiu da pista, capotando várias vezes. Seu corpo foi encontrado já sem vida na pista, ele não estava usando sinto de segurança. O estranho é que o Rômulo nunca andava sem o sinto, era sempre a primeira coisa que ele me perguntava quando entrávamos no carro:

“Colocou o sinto?”

Penso nisso até hoje, porque justamente nesse dia ele estava sem sinto?…

Depois dessa tragédia, eu nunca mais fui a mesma. Nunca mais voltei a ter outro relacionamento. Hoje eu vivo por viver, não tenho alegria em nada, só respiro. Eu jamais faria alguma coisa contra a minha própria vida, mas não consigo mais encarar o mundo lá fora.

Bom, essa é minha história, desculpem o desabafo. Agradeço ao blog Superno por me deixar contá-la.

Essa é uma história real. Os nomes das pessoas envolvidas nessa história foram substituídos por nome fictícios para garantir a privacidade dos mesmos.


Publicado por feliciaellenbueno

Musicista (cantora, compositora e produtora musical), escritora, filósofa, blogueira, artesã, jardinista, polímata, autodidata. Amante das artes, da natureza e dos animais.

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