No final dos anos 1700, os moradores de Yatton, uma pequena vila a cerca de trinta e dois quilômetros de Bristol, na Inglaterra, ficaram bastante alarmados quando um homem chamado George Lukins, começou a exibir um comportamento cada vez mais bizarro. Ele espontaneamente começava a rosnar como um animal ou latir como um cachorro, bem como a cantar hinos de trás para frente e a falar em uma língua estrangeira que o homem analfabeto não tinha como conhecer.
Ele começava a falar tanto com a voz de um homem quanto com a de uma mulher, ou deixar escapar obscenidades vulgares ou palavrões sem motivo aparente. Durante esses ataques, ele também costumava convulsionar, andar de quatro ou parecer ser jogado por mãos invisíveis. Era um comportamento muito atípico para o homem, que os aldeões sabiam que sempre foi muito bem comportado, calmo e alegre. Esses episódios estranhos eram completamente imprevisíveis, podiam durar até cerca de uma hora.
Essas “crises” se tornaram ainda mais intensas com o passar do tempo. George Lukens tinha explosões violentas onde ele podia arranhar ou morder as pessoas. Ele também podia esmagar itens com uma força muito além do que sua pequena e frágil figura conseguiria naturalmente, além de falar com vozes que não eram suas e também mostrar uma profunda aversão a símbolos religiosos, objetos, ou palavras.
Os moradores começaram a ficar muito assustados com isso e começaram a suspeitar que George estava sob a influência de forças demoníacas ou feitiçaria, após ele ter sido considerado incurável pela comunidade médica. A medida em que se passavam os dias, o próprio George começou a proclamar a qualquer um que quisesse ouvir, que ele estava possuído por sete demônios distintos. Um ministro chamado Joan Valton, que conhecia George há muito tempo, disse sobre ele na época:
“Eu o conheci pessoalmente, quando ele ainda era um jovem de cerca de dezoito anos, de baixa estatura e bem magro. Ele foi cruelmente possuído e pronunciava linguagem obscena. Ele dizia que única forma dele ser liberto dos sete demônios era se sete ministros orassem por ele…”
O que quer que estivesse atormentando George, estava obviamente afetando sua saúde, já que ele estava definhando e nem de longe lembrava a imagem do homem de antes. Algo estava drenando todo seu vigor e os aldeões estavam extremamente preocupados com ele. A história do homem estranho, aparentemente possuído, espalhou-se pelos arredores da vila, finalmente chamando a atenção de um reverendo anglicano em Bristol chamado Joseph Easterbrook, que era o vigário da Igreja do Templo da cidade.
Quando outros clérigos da Igreja foram informados do caso, a maioria deles concordou que era uma possessão demoníaca possivelmente genuína, mas se recusaram a se envolver, provavelmente por medo. No entanto, Joseph Easterbrook conseguiu reunir seis outros ministros de um movimento de cristãos evangélicos chamado Wesleyanismo, com o objetivo de organizar um exorcismo para George Lukins.
De acordo com o próprio relato de Joseph Easterbrook sobre a provação, o exorcismo começou com George cantando assustadoramente em uma voz aguda, que logo caiu em um timbre profundo e rouco que ridicularizou e repreendeu os ministros presentes, provocando-os e dizendo que sua tentativa de libertá-lo, sem dúvida, falharia. Ele então começou a alternar entre a voz de um homem e a voz de uma mulher, vomitando e proferindo discursos blasfemos, ameaças de violência física e até mesmo cantando uma canção de amor.
Os demônios também deixaram muito claro que estavam furiosos com a presença dos sacerdotes. À medida em que esse discurso continuava, outras vozes distintas começaram a aparecer, tagarelando sobre coisas diferentes, cantando, latindo, rosnando, balbuciando sobre tolices absolutas e uma voz particularmente grave se gabando de seus vastos poderes. Às vezes as vozes falavam um latim perfeito, do qual George não tinha absolutamente nenhum conhecimento, surpreendendo um observador cético treinado em latim e convencendo-o de que talvez o que ele estivesse vendo fosse tudo real.
George Lukins também cantou um hino de louvor, chamado “Te Deum”, ao diabo, proclamando-o o líder supremo e governador de todas as coisas. O homem assombrado tornou-se tão indisciplinado, que precisou de dois homens para segurá-lo enquanto os ministros diziam suas orações sobre seu corpo contorcido. Quando perguntados por que eles estavam torturando George, um dos demônios respondeu:
“Para que eu possa mostrar meu poder aos homens”.
Após duas horas de intensa oração e constante contenção física, George então se acalmou, louvou a Deus e declarou que as presenças malignas haviam desaparecido. Enquanto aqueles que estiveram presentes estavam convencidos de que isso tinha sido uma possessão demoníaca genuína, muitos cidadãos honestos da aldeia também tendiam a concordar. No entanto, outros não tinham tanta certeza. Houve quem criticasse a veracidade do fato, acusando-o de ser um ventríloquo inteligente e mímico habilidoso, além de alcoólatra e brincalhão.
Outros diziam que George apenas sofria de alguma forma de epilepsia, que havia sido exagerada pelo clero para parecer mais sobrenatural, ou que a parte da possessão demoníaca fora inteiramente fabricada por George para evitar ter que trabalhar. Até mesmo alguns outros clérigos criticaram o próprio exorcismo, acusando os ministros Wesleyanos de não terem sido devidamente ordenados para se envolver em tais batalhas.
No entanto, se tudo não passava de uma performance teatral arquitetada por George, como explicar os idiomas falados durante a possessão, se de fato, ele era analfabeto e não tinha o conhecimento de tais línguas? E como explicar a força descomunal que o franzino homem, ainda mais debilitado pela situação, passou a apresentar? O exorcismo de George acabou sendo um dos exorcismos mais debatidos e controversos que o país já viu. De sua parte, George nunca mais apresentou nenhum comportamento estranho e nem experimentou mais incidentes de possessão demoníaca após seu exorcismo. Ele voltou a ter uma vida tranquila e humilde.
Embora ele quisesse ficar em Bristol, ele acabou voltando para casa em Yatton devido à reação negativa do público por ele morar lá após o exorcismo. Ele continuou a viver uma vida bastante pobre, com apenas empregos esporádicos como vendedor de livros, vivendo principalmente da mendicância e ajuda do governo até morrer na solidão em 1805.
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