Essa é uma história real e foi gentilmente cedida pela escritora Amanda Kraft ao Blog Superno.
Nelson era um jovem destemido, morador do Sítio Esperança, lá pras bandas do Pau Seco. Nada o assustava. Jovem namorador, cortava a picada de terra a cavalo, logo que o sol se preparava para dormir, pegando o rumo da Fazenda Salto Grande, atrás de mais um rabo de saia. Voltava sempre com a lua querendo dar lugar ao sol mais uma vez e, quando o fazia, cantava a plenos pulmões arrancando todo mundo da cama. A vó Brasília o tinha como seu xodó, uma vez que fora o último a nascer. Era querido por todos e jamais caía na conversa das velhas tias quando o assunto era assombração. Ria de todo mundo e dizia que jamais vira se quer uma sombra nas suas andanças pelas madrugadas em que voltava ao sítio com o coração aliviado.
Eu era sua sobrinha. Alguns anos mais nova do que ele. Sentia-se ressentido comigo por ter-lhe roubado o trono quando nasci e passei a ser a queridinha das velhas tias e da Avó. Estava sempre implicando comigo. Fui motivo de zombaria da sua parte assim que algo estranho se passou comigo, quando a mãe mandou que eu fosse levar comida para o pai na roça. Caminhava de pé descalço, feliz da vida, carregando o caldeirãozinho de comida pela estradinha de terra batida que circundava o sítio vizinho do Velho Silva, quando o vi saindo do meio das árvores plantadas na divisa das propriedades.
Era um homem avarento que nunca desperdiçava nenhum grão de milho caído no chão da plantação. Varria suas terras, trazendo um saco de estopa nas costas, só para esse fim. Encarei-o, ressabiada, ao notar suas mãos plúmbeas e seu rosto escondido pelo chapéu. Mantinha-se calado, ainda com saco nas costas. Tentei várias vezes ver seu rosto, mas ele mirava o chão sem se importar com minha presença. Caminhamos em silêncio por alguns metros, até que ele entrou novamente no meio das árvores. Chegando ao encontro do pai, dei-lhe o caldeirão e me sentei ao seu lado, cabisbaixa. Ele perguntou o que eu tinha. Perscrutei-o e perguntei:
— Pai, o velho Silva não morreu?
— Você sabe que sim. Não se lembra de que eu fui ao velório?
Contei-lhe o ocorrido e ele me olhou seriamente. Disse-me para fazer uma oração e voltei para casa. Lá chegando contei à minha mãe e ela começou a gritar e a contar para todo mundo que eu havia visto um morto. Nelson riu muito, disse-me uma mentirosa e passou a me chamar de Velho Silva toda a vez que me via.
Talvez por castigo do Universo, num retorno numa dessas noites de namoro, um homem pareou a cavalo junto à dele, em plena lua cheia. O destemido tio tentou intitular uma conversa com o desconhecido, entretanto o homem seguiu ao seu lado sem dizer uma só palavra. Sequer voltou seu rosto para que pudesse ver-lhe o semblante debaixo do chapéu. Já próximo à mangueira onde apeava a fim de soltar o cavalo no pasto, o homem desapareceu bem diante de seus olhos. Naquela noite tio Nelson voltou para casa num silêncio mortal. A partir daquele dia, as noites perderam a cantoria, o namoro passou a ser durante o dia e apenas nos finais de semana. Nunca mais tio Nelson me chamou de velho Silva. Acho que aprendeu a não duvidar das coisas estranhas que, por vezes, nos acometem.
OBS.: Essa estória é verídica, contada por minha mãe.
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