O naufrágio do Bateau Mouche…

Na manhã do primeiro dia do ano de 1989, os brasileiros acordaram com o anúncio de uma tragédia. Uma embarcação que levava a bordo cerca de cento e cinquenta passageiros, havia naufragado na Baía De Guanabara, no Rio De Janeiro e muitos passageiros ainda estavam desaparecidos…

Muitas manchetes sensacionalistas dos veículos de mídia da época anunciavam o naufrágio do “Titanic Brasileiro”. No entanto, o Bateau Mouche IV, estava longe do glamour dos famosos estaleiros da antiguidade, como o Harland and Wolff, famoso por ter produzido a maioria dos navios da White Star Line que entraram para a história.

O Bateau Mouche na verdade, se tratava de um antigo navio pesqueiro cheio de “gambiarras”, fabricado em Fortaleza no ano de 1970 e batizado inicialmente como “Kamaloka”. Posteriormente, ele recebeu um novo nome e sofreu diversas transformações para ser usado como navio de turismo, chegando a ser considerado o “cartão postal” do Rio De Janeiro…

Os motivos apontados pelas investigações para as prováveis causas do naufrágio são tantos, que seria apenas uma questão de tempo para que algo parecido pudesse acontecer. Uma tragédia anunciada e negligenciada pelos órgãos que deveriam ter cumprido seu papel para evitá-la, mas não o fizeram…

A história do Bateau Mouche IV, é um exemplo de irresponsabilidade, negligência, ganância, corrupção e impunidade…

O Bateau Mouche IV…

Imagens Do Bateau Mouche IV.

A velha embarcação cheia de gambiarras, já era uma preocupação para o comandante Camilo Faro que acabou perdendo sua vida no naufrágio…

O Bateau Mouche IV nasceu como um Iate de passeio com capacidade para vinte passageiros, que era usado como navio pesqueiro. Quando foi comprado por um grupo de empresários que reunía nove espanhóis e um português, a embarcação já era antiga e apresentava um estado ruim de conservação.

Uma reforma foi iniciada sob a responsabilidade do engenheiro civil Mário Triller, em uma oficina improvisada em Botafogo, onde a embarcação passou por uma série de transformações que a deixou completamente descaracterizada. Dentre essas alterações, estava o acréscimo de um segundo andar com uma laje de concreto pesando cerca de quatro toneladas e a instalação de duas caixas d’água.

Testemunhas afirmaram que o comandante Camilo Faro, responsável por comandar o Bateau Mouche na noite do naufrágio, já havia reclamado ateriormente das preocupantes condições de segurança do navio, no entanto, seus alertas foram ignorados pela empresa responsável pela embarcação…

O naufrágio…

Imagem do Bateau Mouche IV após ser retirado do fundo do mar, no dia 16 de janeiro.

A superlotação do navio era notória, no entanto ele foi liberado pela Capitania Dos Portos para seguir viagem. Às pessoas a bordo ainda não sabiam, mas aquela seria a última viagem do Bateau Mouche IV…

O ano era 1988. Na noite do dia 31 de dezembro, os ingressos para a noite de réveillon em alto mar a bordo do navio de turismo Bateau Mouche IV ainda eram vendidos, mesmo já tendo alcançando o número limite de passageiros. Cada um dos passageiros, havia pago algo em torno de R$780,00 para os dias de hoje.

Muitas pessoas estavam empolgadas para participar do evento que contava com uma ceia de ano novo e a visão privilegiada da queima dos fogos de artifício que aconteceria na praia…

O capitão do Bateau Mouche III, havia se recusado a embarcar mais passageiros após o navio atingir o limite de sua capacidade, então os demais passageiros foram acomodados no Bateau Mouche IV. Algumas pessoas não gostaram do que viram e acabaram desistindo da viagem…

Às 21h, sob o comando do comandante Camilo Faro, o Bateau Mouche IV saía da Baía De Guanabara, dando início a sua última viagem com destino à praia de Copacabana, levando a bordo, aproximadamente (não havia lista de passageiros) cento e cinquenta pessoas, um número muito acima da capacidade do navio.

As pessoas a bordo do navio dançavam e se divertiam despreocupadamente, espremidas na embacarção que estava tão cheia que não havia lugares para que todos pudessem se sentar para comer.

Por volta das 22h15, o Bateau Mouche IV foi interceptado pela Capitania dos Portos, sendo necessário que a embarcação voltasse ao cais para uma contagem dos passageiros, no entanto, mesmo estando evidente a superlotação, o navio foi liberado para seguir viagem, dez minutos depois…

Quando a embarcação estava entrando em mar aberto, alguns passageiros começaram a perceber que algo estava estranhamente errado…

O navio começou a balançar violentamente, dando fortes solavancos. Testemunhas que estavam em outros barcos, relataram ter percebido que o Bateau Mouche IV parecia estar com problemas para se manter equilibrado sobre as águas.

Alguns passageiros perceberam que o piso do banheiro estava inundado e que a água do mar, começava a jorrar pelo vaso sanitário como se fosse um chafariz…

Logo, uma leve inclinação na embarcação começou a preocupar algumas pessoas, no entanto, a festa continuava. Os passageiros comiam, conversavam e dançavam, alheios ao terror que viveriam minutos depois…

Assustado, um dos passageiros rapidamente vestiu um dos coletes salva-vidas, enquanto outros, sob um clima de descontação e total incredulidade diante do perigo, começaram a cantar o refrão de uma antiga canção chamada “Marcha do Remador”, composta por Antônio Almeida e Oldemar Magalhães que dizia:

“Se a canoa não virar, olê olê olá, eu chego lá…”

No entanto, o clima de descontação seria rapidamente substituído pelo medo e o som da canção pelos gritos de pânico e desespero…

Enquanto alguns estavam bêbados e ignoravam completamente o perigo, outros começavam a ficar  assombrados e temendo o pior…

Testemunhas disseram que em um determinado momento, os passageiros teriam se deslocado em massa para boreste do navio, o que teria causado uma perigosa inclinação, desestabilizando a embarcação que já estava em uma situação de risco.

Os passageiros no convés superior, foram os primeiros a se dar conta de que o navio estava tombando e alguns se jogaram no mar. Com a inclinação, as mesas que eram soltas, foram lançadas sobre os passageiros que desesperados tentavam se segurar e alcançar os coletes salva-vidas.

Era tarde demais…

À medida em que o navio adernava, muitos passageiros eram jogados no mar, até que o Bateau Mouche virou completamente deixando apenas seu casco visível.

O cenário era desesperador! No mar, dezenas de pessoas lutavam por suas vidas a mais ou menos dois quilômetros da praia de copacabana, enquanto ao fundo, a queima dos fogos iluminava aquela fatídica noite…

Alguns navios passavam pelo local do naufrágio, porém, com o barulho dos fogos, não era possível ouvir os gritos de socorro e devido a escuridão, não perceberam os náufragos no mar e acabaram atropelando alguns.

Enquanto isso, outros passageiros conseguiram subir no casco do navio, no entanto, em questão de segundos, ele afundaria completamente, descendo a uma profundidade de 27 metros.

Por volta das 23h50 do dia 31 de dezembro de 1988, o Bateau Mouche naufragava na Baía de Guanabara, levando consigo aqueles que não conseguiram sair do navio…

O resgate…

Imagem do pescador Jorge Souza Viana que na noite do naufrágio, resgatou mais de trinta pessoas.

“Pra ser sincero, não salvei ninguém. Foi Deus quem salvou. Foi ele quem me colocou ali, naquele momento. Qualquer um, no meu lugar, faria o que eu fiz”…

Jorge Souza Viana.

O pescador Jorge Souza Viana que na época tinha 28 anos, passava pelo local com sua família e amigos a bordo de sua traineira de pesca. Ao perceber o que estava acontecendo, ele começou a resgatar os náufragos em uma operação que durou cerca de vinte minutos, salvando as vidas de mais de trinta pessoas.

O empresário Oscar Grabriel Júnior, dono do Iate Casablanca, percebeu que havia pessoas no mar e imediatamente direcionou as luzes do navio para o local, foi então que ele se deu conta de que estava diante de uma tragédia e rapidamente iniciou a operação de resgate.

O Bateau Mouche III se aproxima do local, mas não para…

No auge da festa no restaurante Sol e Mar, os navios com sobreviventes começam a chegar na praia, porém são ignorados pelos responsáveis pelo passeio, que fecham o restaurante para que os sobreviventes não tenham acesso…

Ao despontar o sol da manhã do dia primeiro de janeiro, as equipes de mergulhadores do grupamento marítimo do corpo de bombeiros do Rio de Janeiro começaram as buscas pelos corpos. Os duas primeiras vítimas são encontradas submersas, presas na boate do navio. Mais tarde, por volta de uma hora da tarde, as lanchas do grupamento marítimo, chegam trazendo mais seis corpos…

O desespero toma conta de parentes e amigos das vítimas. Ao todo, cinquenta e cinco corpos são resgatados do mar. Dentre eles, os corpos da atriz Yara Amaral, 52 anos e de sua mãe Elisa, 73 anos. O número de vítimas poderia ter sido ainda maior, se alguns convidados, não tivessem desistido do passeio em cima da hora…

Yara Amaral e as premonições…

Imagem de Yara Amaral com a mãe e os filhos.

Yara Amaral era bancária antes de se tornar atriz. No ano de 1974 era ganhou seu primeiro prêmio Molière, com uma peça chamada “Réveillon”…

Embora houvessem muitas irregularidades no Bateau Mouche IV e que o naufrágio de fato, já fosse uma tragédia anunciada, alguns eventos inexplicáveis ocorreram antes da fatídica noite. Algumas pessoas tiveram premonições, de algum modo, foram avisadas da tragédia…

Duas mulheres de uma mesma família, tiveram sonhos com naufrágio e pessoas se afogando na mesma noite. Mesmo assim, a família inteira estava no Bateau Mouche IV na noite do naufrágio. Afortunadamente, todos conseguiram se salvar…

A atriz Yara Amaral e sua mãe também estavam a bordo do navio. Ambas haviam sido convidadas para participar do evento pela amiga Dirce grotkowski…

A atriz que tinha medo de água, dias antes do naufrágio, manifestou o desejo de aprender a nadar. Quando questionada pelo filho sobre o motivo do interesse repentino, ela apenas respondeu que estava tentando vencer o medo da água e que se via morrendo no mar…

Um mês antes, em uma conversa com seu ex marido Luis Fernando Goulart, Yara comentou que tinha a impressão de que um dia acabaria sendo tragada por uma onda do mar e que jamais conseguiria voltar.

Antes de perder a vida no naufrágio, ela chegou a comentar com familiares que estava tendo pesadelos recorrentes com o mar. Amigos da atriz relataram que em seus últimos dias, ela parecia triste e extremamente melancólica.

Curiosamente, o nome Yara significa “aquela que mora nas águas” ou “mãe das águas”. Outro fato incomum, é que a atriz não morreu afogada, a causa da morte foi um ataque cardíaco…

As investigações…

A impunidade dos responsáveis pelo naufrágio até hoje causa indignação. Os processos intermináveis e a fuga dos acusados, acabaram com as esperanças de justiça das vítimas…

As investigações apontaram diversas irregularidades na embarcação e as possíveis causas que a levaram a afundar. O posicionamento de duas caixas d’água no teto da embarcação, a substituição do piso de madeira original do convés superior por um piso de concreto e a superlotação, são apontadas como as principais causas.

As escotilhas e vigias não eram estanques e com o excesso de peso ficaram abaixo do nível do mar alagando os compartimentos inferiores. Com o deslocamento simultâneo dos passageiros para boreste por volta das 23h50, o navio não conseguiu mais se manter flutuando. As bombas de esgotamento que deveriam jogar a água para fora da embarcação em caso de alagamento, também não estavam funcionando perfeitamente…

Uma das questões levantadas pelos investigadores, era a possibilidade de ter havido suborno na liberação do barco pela Capitania dos Portos. Após 75 dias de investigação, quatro pessoas foram indiciadas. O mecânico responsável pela manutenção do barco, os sócios da Bateau Mouche Rio Turismo e o dono da Itatiaia Turismo, que organizou o passeio.

O Tribunal da Marinha condenou a empresa Bateau Mouche e caçou sua licença, o que possibilitou que as vítimas entrassem com o pedido de indenização na Justiça sem a necessidade de apresentar provas.

Em 1990, dois anos após o naufrágio, os onze denunciados pelo Ministério Público foram absolvidos o que gerou indignação nos sobreviventes e familiares das vítimas.

No dia 5 de dezembro do mesmo ano, o juiz André Koslovsky condenou as empresas Bateau Mouche e Itatiaia Turismo a pagarem indenizações às famílias de seis vítimas do naufrágio. Em seguida, o juiz José Ricardo de Serqueira declarou culpados os donos do barco, que pela primeira vez, foram condenados por danos morais, além de materiais…

No dia 27 de junho de 1991, saiu a sentença que absolveu três oficiais e condenou outros três, no entanto, por serem réus primários, os militares culpados cumpririam as penas em liberdade. Em novembro do mesmo ano, os principais sócios da Bateau Mouche Rio Turismo, Álvaro Pereira da Costa e Faustino Vidal, foram condenados a quatro anos de detenção, em regime semiaberto…

Posteriormente, os empresários Avelino Rivera, Álvaro Pereira Da Costa e Faustino Vidal, fugiram do Brasil. Avelino Rivera e Faustino Vidal chegaram a ser presos pela Interpol, a pedido do governo brasileiro, que também solicitou a extradição de ambos, no entanto, ela foi negada pela Audiência Nacional Espanhola.

Até os dias de hoje, os três condenados continuam foragidos e as vítimas continuam esperando o pagamento da indenização…

Pesquisa e texto de Felícia Elen para Superno.

Publicado por feliciaellenbueno

Musicista (cantora, compositora e produtora musical), escritora, filósofa, blogueira, artesã, jardinista, polímata, autodidata. Amante das artes, da natureza e dos animais.

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