A paralisia do sono… (Relato 17)

Tínhamos um Hotokesama em casa. Pra quem não sabe, é uma espécie de Altar Japonês, local onde fazíamos rezas e orações para cultuarmos nossos antepassados…

Cultuá-los é tradição muito comum entre os japoneses, seus descendentes e membros da colônia oriental. Praticamente todos os membros da colônia japonesa daqui da cidade, tinham um Hotokesama em casa.

O nosso tinha algumas fotos… Tinha do meu saudoso vô, que eu tive a honra de conviver, da minha vó e tinha também uma foto preto e branco, muito antiga, de um irmão do meu avô… Ele se chamava de Massao… Massao Oitian, ou Tio Massao em português…

Durante minha infância era proibido falar no Massao Oitian em casa… Não compreendia porque os mais velhos faziam o “Oinori” (ritual de oração) para ele diante do Hotokesama, mas ninguém falava dele na minha presença…

Sempre foi um mistério pra mim… Quem era aquele Tio daquela foto antiga, em preto e branco, quase que escondida no fundo do altarzinho ? Durante muito tempo não soube quem ele era mesmo…

Certo dia, recebemos a visita de uma parente distante. Minha mãe então, foi buscá-la na rodoviária…  Lembro que era de madrugada e estava bem frio, muito frio…

Devia ser julho, acho que eu estava de férias, devia ter uns 8 a 9 anos… Criança de férias, espera visita de outra criança de férias. Torcia para que fosse minha Tia Rosa, de São José, para que meu primo Dinho viesse também.

Gostava muito dele, tínhamos a mesma idade, brincávamos muito de futebol, fazíamos e soltávamos pipa, pião, estilingue, coisas de criança raiz !!!

Mas assim que voltaram da rodoviária, já vi que não era nem a minha Tia e nem meu primo… Fiquei triste, desgostoso, desolado, desanimado, cheguei até perder meu sono…

Chegaram e ficaram na cozinha, e enquanto minha mãe passava um cafezinho, conversaram bem baixinho, quase cochichando para não acordar ninguém…

Criança educada não se intrometia em conversa de adulto, em casa era assim… Sempre foi, mas estava eu lá, triste, desolado, sem sono…  E lá do meu quarto, de frente pra cozinha, dava para ouvir a conversa certinho…

E sem querer querendo, eu ouvi tudo, tudo, tudinho da Silva… Não me intrometia de propósito em nenhuma conversa de adulto, mas ali entendi o porque ninguém falava do Massao Oitian quando eu estava presente…

Meu Tio Massao…
Ele se matou…
Entendam…

Se hoje o assunto suicídio é um tabú e evitado em muitas plataformas virtuais e redes sociais, imagina num ambiente com uma criança de 8 anos, lá atrás, no começo dos anos 80…

Pois é…
Então…
Eu fiquei chocado…

Hoje entendo que eles queriam me preservar… Afinal minha inocência e pureza infantil, contrastava demais com os dissabores do assunto morte, ainda mais de forma trágica como foi… Na condição de um suicídio…

É uma conversa “forte”, de adulto, e criança em casa, não se intrometia em conversa de adulto… Agora tudo fez sentido pra mim…

Muito sentido…

Essa conversa começou a ficar assustadora quando essa visita revelou para minha mãe, que estava sentindo uma forte presença do Massao Oitian na sua casa…

Me arrepiei todo…

Ela disse que o via de noite… Toda noite… Enquanto estava dormindo, acordava assustada, com ele em pé, na frente da sua cama… Ficava horas estático, encarando, como se a estivesse julgando e a condenando por algo que ela nunca teve culpa… A sua morte…

Cada vez que ocorria, ela ficava paralisada, totalmente paralisada…
Petrificada… Sentia tudo à seu redor, ouvia a TV ligada na sala e seu filho mudando de canal… Ouvia os latidos do cão do vizinho de muro…

Pedia ajuda…
Mentalmente…
Pra todos…
Pra qualquer um…
Ninguém ouvia…
Ninguém ajudava…
Estava presa…
Refém do seu próprio corpo…

Seu marido ao lado dormindo, sequer imaginando o que se passava dentro daquelas quatro paredes… Sequer imaginando o pavor que sua esposa estava sentindo e passando naqueles terríveis momentos …

Ela dizia chorando para minha mãe que ela queria gritar com todas as suas forças, mas não conseguia mover nenhum músculo do corpo… Estava totalmente paralisada… Petrificada… A única coisa a se movimentar naquele corpo inerte, eram suas lágrimas, lágrimas que escorriam pelo rosto, umedecendo o travesseiro…

O marido e o filho jamais imaginavam que ela era vítima da PARALISIA DO SONO… Ela estava tão desesperada, tão desesperada que até pensara em tirar a própria vida… Em pleno desespero, (como o Tio Massao), ela queria tomar veneno…

O dia estava amanhecendo, o sol começava a iluminar meu quarto, ouvi um carro parar em frente a nossa casa… Alguém desceu… O portão abrira, a porta da cozinha também, ouvi um sonoro “Bom dia”, de uma voz muito conhecida…

Dona Benê chegara em casa !!!

Essa é uma história contada por Cláudio T. Suzuki para o blog Superno.

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Publicado por feliciaellenbueno

Musicista (cantora, compositora e produtora musical), escritora, filósofa, blogueira, artesã, jardinista, polímata, autodidata. Amante das artes, da natureza e dos animais.

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