Eu criei uma lenda… (Relato 13)

Até os 12 anos morei numa casa que tinha um terreno enorme. Ela tinha mais de 60 metros de fundo !!! Lote gigantesco, era a única casa do quarteirão que tinha um terreno tão longo… Desproporcional e com todo esse comprimento de lote, acabava que tínhamos muitos vizinhos “de muro”, muitos mesmo, acho que eram uns 10 ou mais…

Posso dizer que eram vizinhos normais, daqueles que param o carro na frente da sua garagem, que fazem festa até as 4 da manhã, que furavam a minha bola de capotão quando esta caía no seu quintal…
Enfim, era uma vizinhança bem comum com exceção de uma única vizinha…

A minha casa ficava na rua Lopes Trovão e essa minha vizinha de muro, que era bem humilde, morava na casa de baixo… Uma casa que era bem simples, de madeira, que não tinha muro fechado na frente, nem portão… Era daquelas casas que a porta da frente, era de tábua e não tinha nem trinco ou fechadura, tinha no lugar, 2 pequenos furos na madeira, na qual uma corrente com cadeado servia para “trancar” a porta…

Olhando de frente parecia uma casa abandonada, dessas que hoje são usadas por drogados, nóias e afins… O problema nunca foi a casa em si que parecia muito uma casa Mal Assombrada…mas sim, “A Lenda” que permeou a situação… E indiretamente não a criei, mas fui eu que alimentei erroneamente essa lenda…

Eu tinha 12 anos, e como toda criança dessa idade, só pensava em brincar com meus amigos e jogar bola sempre que pudesse. Com uma área grande igual a nossa, minha casa sempre tava cheia de gente !!! Galera toda sempre curtindo !!! Quanta saudade !!!
Era futebol nos fundos e voleibol na frente… O portão era a melhor rede de vôlei que existia, a calçada era o limite externo da quadra e o juíz éramos nós mesmos…

Num desses jogos, paramos a partida para que minha vizinha pudesse passar pela calçada e meus amigos que não a conheciam, ficaram assustados com a deformidade que ela tinha no pescoço… Vou explicar:

A cabeça dela ficava torta e deitada sobre o ombro, uma espécie de torcicolo extremo, quase virada pra trás, um olho sempre fechado e ela andava mordendo a língua, no rítmo da passada e ela andava pisando forte e rápido… Era uma cena grotesca, mal-humorada, ela passou por nós quase atropelando a gente, quase chutando a bola…

Rapidamente entrou na sua casa e deu pra ouvir o barulho do cadeado abrindo e os elos da corrente raspando na madeira… Molecada ficou toda impressionada, nem teve mais volei nesse dia… Eu já tava acostumado, eu a via sempre, tinha muita dó, até comentei com eles que apesar da aparência truculenta e deformada, ela tinha uma voz muito bonita…

Geral toda curiosa querendo entender tudo aquilo e eu expliquei o pouco que sabia… Falei que como eu, eram de origem e descendência oriental, sempre reclusas e muito reservadas, expliquei que na casa antigamente eram quatro pessoas, mas atualmente  moravam só a mãe e a filha, pois o pai que era sitiante, havia falecido, bem como o filho mais velho… Ambos morreram em circunstâncias misteriosas… Eu não era nem nascido nessa época…
Até então era isso que uma criança de 12 anos sabia…

Com o tempo o pessoal foi se acostumando, sempre que a viam na rua, a cumprimentavam, mesmo sabendo que o cumprimento não era recíproco, ela nunca esboçou nenhuma reação, nenhum sorriso, nenhuma cordialidade conosco…

No fundo a gente tinha dó, acho que sentíamos um pouco da vida sofrida dela, não deve ser fácil ter uma deformidade física tão grotesca… Estranho que enquanto tinhamos dó da filha, tínhamos muito medo da mãe dela…

A mãe era uma senhora magra, bem franzina, grisalha, com cabelo sempre em coque e mesmo com esse biotipo frágil, eu tinha pavor dela, não sei porque mas nós todos tínhamos… Nunca olhei fixamente pra ela, não conseguia… Aquela velha tinha muito ódio estampado na face… O olhar dela expressava raiva de tudo e de todos… Aquele rosto enrugado escondia da gente algo extremamente diabólico … Não dá pra explicar… Na verdade o medo não se explica… O Medo se sente…

Num domingo, estávamos no fundo de casa, lembro que era época de manga e lá tinha uma mangueira gigante…Juntou a molecada toda e tava todo mundo pendurado na árvore, chupando manga rosa, quando de repente começamos a ouvir barulho de prato quebrando, copo e vidros estilhaçando, e todo barulho vinha lá da rua… Corremos para o portão !!! Dava pra ouvir uma gritaria que vinha de dentro da casa da vizinha… Pelo menos três pessoas discutiam…

Todos nós vimos muitas garrafas, pratos e copos sendo atirados, da casa pra rua… Estilhaçavam todos no asfalto… Outros vizinhos apareceram também, todos muito assustados com o ocorrido… Ao longe, lá embaixo na esquina, vimos uma senhora andando bem rápido, parecia muito nervosa, veio gesticulando, falando alto em japonês, como se discutisse com alguém. Era a mãe…

Chegou resmungando muito, reclamando, chingando, logo atravessou a rua, gritou algo enquanto entrava na casa…

Entrou…

E da mesma forma repentina que a ocorrência começou, a ocorrência parou…

Tudo parou…
Silêncio…

Silencio absoluto lá dentro… Muitos cacos de vidro no chão, muita sujeira lá fora… Clima tenso… O ambiente ficou muito pesado…

Além de assustados, tava todo mundo melecado de manga, então era o mais certo lavar as mãos e a boca, queríamos é tirar aqueles fiapos dos dentes…

A torneira nossa ficava ao lado do muro, justo no muro do lado daquela casa… Foi inevitável ouvir aquilo que jamais deveríamos ter ouvido e naquele momento ainda… Eram quatro pessoas discutindo, quatro vozes distintas… E alguns sons guturais estranhos que eram mesclados com a voz doce da moça…

Sons diabólicos, expressões de puro ódio, palavras ameaçadoras ditas por quatro bocas em japonês… Eu sabia que lá moravam somente mãe e filha, na curiosidade queria saber então quem eram as outras duas pessoas que discutiam também…

Tanto ódio fora expressado em palavras, tanto ódio destruíra pratos, copos e garrafas há pouco… Não entendia como poderia caber naquela casinha de madeira, naquele pequeno cubículo minúsculo, tamanha quantidade de raiva, ódio, somada a todo um conjunto imenso de sentimentos malignos…

Na hora não entendi…
Hoje entendo…

Pegamos um banco de madeira da garagem, escoramos no muro, subimos para ver e vimos… Mãe e filha discutindo… Só as duas… Eram só as duas… Eram quatro vozes mas… Não tinham quatro pessoas… Eram só as duas…

Da filha saía uma voz masculina grossa ameaçando a mãe… (Deu medo…) A mãe respondia com ímpeto à ameaça da voz masculina…A filha alternava de voz toda hora !!! (Deu mais medo !!!) Ela tinha uma voz doce, a própria dela, mas que de repente ficava grossa, diabólica e mais uma outra voz masculina também…

A filha estava incorporando dois espiritos !!! Deu mais medo ainda !!! O pescoço dela dobrava e desdobrava toda hora… (PelamordeDeus…) Dependendo da voz… Percebi que a voz maligna, a voz mais grossa e diabólica, vinha quando ela ficava com o pescoço torto…

Na hora ninguém entendeu nada…
Molecada foi embora assustada…
Amedrontados, cada um teve sua versão do que viu e ouviu…Contaram pra todo mundo !!! Cada foi um aumentando a versão do outro, e a partir daí a lenda da casa assombrada foi criada… Agora entendem quando eu disse que indiretamente ajudei a alimentar a lenda ???

A mãe me dava muito medo… Essa mesma mãe, encarnação do mal, maltratou tanto o seu filho na adolescência, que num momento de desespero ele se matou… Ele pulou na frente do trem… Quebrou seu pescoço, teve parte da face comprometida, o olho e a língua foram arrancados… Por isso a filha quando incorporava… Ficava com o pescoço daquele jeito, com um olho fechado e mordendo a língua… Ela incorporava o espírito vingativo do filho… Na verdade nós víamos o filho incorporado no corpo da filha…

Eles tinham um pequeno sitio, próximo à entrada da cidade, de tanto desgosto, o pai enfartou e faleceu voltando a pé desse sitio, demorou alguns dias pra encontrarem o corpo pois a mãe nem deu queixa do desaparecimento dele… Mulher ruim, miserável, não fez velório nem enterro decente para o próprio marido…

Gostaria de terminar esse relato, com uma reflexão… Todos julgamos pelo que vemos exteriormente, julgamos um livro pela capa, o conteúdo pela embalagem… Por causa do estado de abandono, por ser feia… Todos chamaram a casa de “Mal” assombrada…

A casa não teve culpa nenhuma, mas foi julgada pela “capa” e condenada por todos… A culpa foi exclusivamente do ser humano que é ruim por natureza… Nem sempre o mal esta escancarado… As vezes o mal habita e se esconde atrás de algo franzino, frágil e delicado… As vezes o mal se esconde atrás de um simples muro…

Essa é uma história contada por Cláudio T. Suzuki para o blog Superno.

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Publicado por feliciaellenbueno

Musicista (cantora, compositora e produtora musical), escritora, filósofa, blogueira, artesã, jardinista, polímata, autodidata. Amante das artes, da natureza e dos animais.

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