A lenda da procissão das almas…

Ao som da marcha fúnebre, matraca e correntes, dezenas de marianenses saem pelas ruas históricas da primeira capital de Minas vestidos com longas túnicas brancas, carregando velas e ossos, para realizar a Procissão das Almas, tradição que se mantém viva há mais de 30 anos na cidade.

Existem duas lendas que justificam a “Procissão das Almas”. A primeira lenda é a de uma senhora chamada Maricota que passava seus dias na janela, fiscalizando a vida alheia. Como já estava com má fama devido ao seu comportamento, decidiu mudar de bairro e também alterou seus hábitos. Ao invés de ficar na janela durante o dia, Maricota passou a ser vigilante noturna.

Uma noite de Sexta-Feira Santa, viu uma procissão se aproximar, mas as pessoas escondiam o rosto dentro do capuz. Ela ouvia lamúrias, som de bumbo, correntes arrastando e uma canção:

“Reza mais, reza mais, reza mais uma oração, reza mais, reza mais, pra alma que morreu sem confissão”.

Como ela não conseguia identificar quem estava ali, começou a ficar intrigada sobre o cortejo que até então desconhecia. De repente, um dos integrantes veio em sua direção dizendo que a noite é dos mortos e pediu para que ela guardasse a sua vela que mais tarde voltaria para buscar.

Na noite seguinte, a procissão voltou, a mesma figura novamente a procurou. Ela então foi buscar a vela, que surpreendentemente havia se transformado em um osso de perna de defunto. Maricota, então, morreu de susto, ao que parece, a alma dona do osso voltou para buscar o que lhe pertencia, levando consigo a alma de Maricota que passou a integrar anualmente a procissão dos mortos.

A segunda lenda se remete a uma senhora classificada como “barata de igreja” que é, na linguagem local, a mulher que está sempre bajulando o padre. Com a contratação de uma jovem moça para ajudar nas escrituras da paróquia, essa senhora ficou muito enciumada. Ela, então, começou a espalhar o boato de que a nova funcionária era namorada do padre.

Com o escândalo, a jovem perdeu o noivo, foi expulsa de casa pelos pais e virou andarilha. Um dia, ela retornou bem maltrapilha e bateu à porta de uma casa solicitando água. Enquanto a moradora atendia ao seu pedido, a moça caiu morta. O enterro foi organizado e toda a cidade, curiosa, compareceu para ver a falecida. Quando a “barata de igreja” chegou, o defunto sentou no caixão e disse “está aqui quem me caluniou”.

Assustada, a mulher saiu correndo e decidiu que era hora de confessar seus pecados e pedir perdão ao padre. Como castigo, ficou incumbida de juntar, em balaios, todas as penas das aves mortas na região. Feito isso, deveria levá-las ao alto de um morro emde lá, soltá-las ao vento para, em seguida, começar novamente todo o processo. Assim foi até sua morte que veio sem que ela terminasse de recolher todas as penas espalhadas. Conta a lenda que ela continua juntando as penas no além…

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Publicado por feliciaellenbueno

Musicista (cantora, compositora e produtora musical), escritora, filósofa, blogueira, artesã, jardinista, polímata, autodidata. Amante das artes, da natureza e dos animais.

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