O homem de olhos negros…

Histórias de Singapura, relato de um oficial do SAR (operações de busca e salvamento), história 5/6.

Uma das coisas mais assustadoras que já aconteceu comigo envolveu a busca por uma jovem que se perdeu de seu grupo enquanto faziam uma trilha pela floresta. Ficamos trabalhando nessa busca até tarde da noite, porque os cachorros haviam sentido o cheiro dela. Quando a encontramos, ela estava debruçada sobre um grande tronco apodrecido. Ela havia perdido os sapatos e a mochila e estava visivelmente em choque. 

Ela não aparentava ter nenhum tipo de ferimento então perguntamos se ela era capaz de caminhar e nos acompanhar. Fizemos com que ela caminhasse conosco de volta às operações da base. Ao longo do caminho, ela não parava de se virar para olhar para trás e ficava nos perguntando por que “aquele homem grande de olhos negros” estava nos seguindo. Não conseguíamos ver ninguém, então simplesmente pensamos que aquilo poderia ser uma estranha consequência do choque por ter se perdido.

No entanto, quanto mais perto chegávamos da base, mais agitada a jovem ficava. Ela insistia em me pedir para dizer ao “homem” que parasse de olhar para ela com aquele “olhar sinistro”. Quando já estávamos bem próximos da base, ela parou, se virou e começou a gritar para a floresta, dizendo que queria que ele a deixasse em paz, que ela não iria com ele. Enquanto tentávamos acalmá-la e convencê-la a continuar a caminhar, ela começou a gritar que não nos entregaria a “ele”. Nessa hora dei uma olhada para meu colega e sua expressão parecia dizer, “tá bom, isso já está ficando estranho, vamos apressar o passo e sair logo daqui”.

Finalmente conseguimos que ela continuasse se movendo, no entanto, começamos a ouvir barulhos estranhos vindos de todos os lados. Era quase como tossir, mas era mais profundo, aquilo não parecia ser o som de nenhum animal que eu conhecesse, não sei bem como descrever. Quando avistamos o local das operações da base, a jovem se virou para mim e seus olhos estavam tão arregalados quanto posso imaginar que um humano poderia abri-los. 

Então ela tocou meu ombro e disse: “Ele me pediu para dizer para você acelerar, ele não gosta de olhar para a cicatriz em seu pescoço”. Nessa hora eu pensei, “peraí, isso já foi longe demais!” Eu tenho uma cicatriz muito pequena na base do pescoço, mas ela fica escondida pelo colarinho e não tenho ideia de como aquela mulher a tinha visto.

Logo depois que ela disse isso, ouvi uma tosse estranha bem no meu ouvido, eu já estava bem tenso e quase pulei fora da minha pele. Chegando na base eu a empurrei para as operações, tentando não mostrar o quão assustado eu estava, já tinha feito meu trabalho, agora era com eles. Devo dizer que fiquei muito feliz quando deixamos a área naquela noite…

Essa é uma história real, a identidade dos envolvidos nessa história foi mantida em sigilo.

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Publicado por feliciaellenbueno

Musicista (cantora, compositora e produtora musical), escritora, filósofa, blogueira, artesã, jardinista, polímata, autodidata. Amante das artes, da natureza e dos animais.

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