Meus 23 anos…

Desde que tenho consciência, eu sempre tive certeza de que morreria aos 23 anos. Não sei porque, eu tenho consciência de que isso não faz sentido algum, mas era algo que eu simplesmente sabia, eu tinha certeza disso e contei aos meus pais e aos meus amigos em mais de uma ocasião. Embora que logicamente, eles achavam que era uma loucura, algo que não tinha nenhuma lógica.

Enquanto minha idade avançava, eu sentia a morte mais e mais perto, minha mente ia se deteriorando lentamente, mergulhando-me na paranóia. Quando eu completei vinte e dois anos, eu quase já não queria sair de casa, somente para o que fosse estritamente indispensável.

Minha família e meus amigos já viam isso como um problema real que poderia afetar meu dia a dia se nada fosse feito a respeito. Então, em uma tarde de maio fizeram uma dessas intervenções, onde me convenceram a receber ajuda psicológica. Eu me dediquei ao máximo para melhorar, mas o medo intenso que eu sentia a cada noite,um medo que simplesmente não me deixava dormir, não desaparecia, nem com medicamentos, nem com terapia era possível apagar da minha mente a certeza absoluta de que ao completar vinte e três anos eu iria morrer imediatamente.

Passados os meses eu estava arrasado, não queria sair, não queria ver ninguém, eu só queria que me deixassem morrer em paz e sozinho. No dia quatro de setembro, o dia do meu aniversário, chegaram vários amigos para me tirar da casa onde eu vivia sozinho e me levar a um bar para comemorar, eu me neguei categoricamente pois eu temia que o teto caísse sobre mim ou que me confundissem com algum traficante e me executassem ali à mesa, que eu ia engasgar com a rolha de uma garrafa ou sabe-se lá o quê. Eu apenas sabia que não devia, debaixo de circunstância alguma sair de casa naquele dia. Depois de discutir com meus amigos, eles decidiram que iriam comemorar ali, na minha própria casa e me levaram um bolo de aniversário.

Eu concordei, embora continuasse a me sentir terrivelmente assustado. Enquanto a festa avançava, meu medo não fazia mais que crescer. Apavorado, decidi deixá-los alí embaixo e subi para meu quarto. Acendi minha vela de aromaterapia para me tranquilizar, eu só queria tomar uns comprimidos para dormir e descansar até que esse maldito dia terminasse. Pensei em descer e expulsar a todos da minha casa, mas ao invés disso, decidi aceitar que o que estava acontecendo comigo não era normal, então eu desci e pedi a meus amigos que por favor, me levassem a um hospital porque eu estava tendo uma espécie de ataque de pânico. Eles ficaram assustados e me levaram na emergência onde me deram calmantes e eu pude descansar bem durante toda a noite no hospital.

Podem interpretar o que relatei nessa história como uma simples coincidência, se assim desejarem, mas para mim foi muito mais que isso. Na manhã seguinte, apenas ao despertar, minha mãe me deu a notícia, minha casa havia pegado fogo. Ao que parece, a vela que eu mesmo havia acendido na noite anterior havia provocado o incêndio, e o mais irônico de tudo é que se eu tivesse seguido meu plano de expulsar meus amigos da minha casa e tomado aqueles comprimidos para dormir, provavelmente eu teria morrido no meu vigésimo terceiro aniversário.

Curiosamente desde então, tenho levado uma vida perfeitamente normal, sem me preocupar em como ou quando vou morrer, esse medo desapareceu e acredito que sei o porquê, eu estou quase certo, de que de alguma maneira, eu consegui enganar a morte.

Série Relatos de Aniversário. A identidade dos envolvidos nessa história foi mantida em sigilo. Siga nossa página no Facebook e indique esse blog para seus amigos.

Publicado por feliciaellenbueno

Musicista (cantora, compositora e produtora musical), escritora, filósofa, blogueira, artesã, jardinista, polímata, autodidata. Amante das artes, da natureza e dos animais.

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