Uma mulher foi encontrada na capela de uma casa, numa noite de junho por um pequeno grupo de padres e freiras. Embora estivesse quente lá fora, um frio palpável caiu sobre a sala.
Quando os sacerdotes começaram a orar, a mulher entrou em transe e começou a falar. Era possível identificar que daquela mulher emanava pelo menos três vozes diferentes e nenhuma era sua própria voz. Uma era profunda, gutural e masculina. A outra era feroz e estridente e havia ainda uma terceira que falava apenas em latim. Quando alguém borrifou água benta sobre ela, ouviram-se urros como se fossem de dor.
“Deixem-na em paz, seus padres de merda, parem suas putas, vocês vão se arrepender…” Gritava a voz gutural.
Provavelmente, você já viu uma narrativa semelhante a essas antes, verdade? A arrepiante narrativa de uma alma corrompida por Satanás e um padre acenando com seu crucifixo para uma mulher que rosna para ele. O livros e filmes de Hollywood retrataram exorcismos por tantas vezes que esse enredo se tornou meio que um clichê.
No entanto, a narrativa que você leu no começo desse texto não é nenhum trecho extraído do roteiro de um filme de Hollywood, mas é a narrativa de um exorcismo real, que diferente da maioria dos exorcismos, esse contou com um personagem que normalmente não é visto no procedimento tradicional.
O Dr. Richard Gallagher é um psiquiatra certificado pela “Ivy League” que leciona na “Columbia University” e no “New York Medical College”. Ele fazia parte da equipe que tentava ajudar a mulher possuída naquela noite.
Lutar contra os ataques demoníacos não fazia parte do plano de carreira do Dr. Richard Gallagher enquanto ele estudava medicina em “Yale”. Ele já tinha ouvido falar sobre relatos de possessão demoníaca, mas pensava que eram uma tentativa da cultura antiga de lidar com transtornos mentais como a epilepsia, por exemplo. Apesar de estar convencido da existência de Satanás e seus demônios, Dr. Gallagher não se considera um homem religioso, ele orgulhosamente se autodenomina um “homem da ciência”.
No entanto, sem pretensões de que sua carreira tomasse esse rumo, Dr. Gallagher se tornou atualmente, o cara mais indicado para uma vasta rede de exorcistas nos Estados Unidos. Ele afirma categoricamente que a possessão demoníaca é real e cita as experiências vividas por ele, sobre vítimas repentinamente falando um latim perfeito, sem nunca antes ter acesso ao idioma. Objetos sagrados voando das prateleiras, pessoas exibindo “conhecimentos ocultos” ou segredos sobre pessoas que eles possivelmente sequer poderiam ter conhecido.
O exorcismo de Júlia…

“Havia uma mulher possuída que apresentava aproximadamente quarenta kilos. Ela jogou um diácono luterano que pesava cerca de noventa quilos do outro lado da sala, isso não é psiquiatria, isso está muito além da psiquiatria…” disse Dr. Gallagher
Dr. Gallagher se autodenomina um “consultor” em casos de possessões demoníacas. Nos últimos 25 anos, ele ajudou o clero a distinguir entre doença mental e o que ele chama de “a coisa real”. Ele estima que viu mais casos de possessão do que qualquer outro médico no mundo.
Dr. Gallagher é um homem alto, possui 1,85 m de altura e já jogou basquete semiprofissional na Europa. Ele tem uma atitude rude e objetiva. Muitos podem pensar que o Dr. Gallegher é um estusiasmado religioso devido a sua postura, mas quando ele fala sobre possessão, é frio e meticulosamente profissional. Seu tom é seco, clínico e natural como se ele estivesse descrevendo o crescimento de algas. Segundo ele, possessões são raras, mas reais.
“Passo mais tempo convencendo as pessoas de que não estão possuídas do que estão”, escreveu ele em um ensaio para o The Washington Post.
Apesar de receber algumas críticas da comunidade científica de que ele estaria “possuído” por seus próprios delírios, ainda assim existem os que o aplaudem e confiam em seus diagnósticos. Um dos maiores mistérios sobre o trabalho do Dr. Gallagher não é o que ele viu, mas como ele evoluiu. Há quem pergunte, como um “homem de ciência” é puxado para o mundo da possessão demoníaca? Em sua resposta curta ele diz que conheceu uma rainha de Satanás.

“Ela estava em conflito, havia uma parte dela que queria ficar livre da possessão…”, diz Dr. Gallagher.
Ela era uma mulher de meia idade que usava roupas escuras esvoaçantes e sombra preta nos olhos. Ela era charmosa e envolvente e também fazia parte de um culto satânico.
Ela se autodenominava a rainha do culto, mas Dr. Gallagher se referia a ela como “Júlia”, o pseudônimo que ele deu a ela.
A mulher abordou o padre local, convencida de que estava sendo atacada por um demônio. O padre a encaminhou a um exorcista, que procurou o Dr. Gallagher para uma avaliação de saúde mental. Entretanto, porque um adorador do diabo desejaria se livrar do próprio?
Ela acabou ajudando o Dr. Gallagher a tirar suas dúvidas. Foi um dos primeiros casos que ele aceitou, e isso o mudou para sempre. Então ele ajudou a montar uma equipe de exorcismo que encontrou Júlia na capela de uma casa.
Objetos voavam das prateleiras ao seu redor. De algum modo, ela sabia detalhes pessoais sobre a vida do Dr. Gallagher, como sua mãe morrera de câncer no ovário, o fato de que dois gatos em sua casa enlouqueceram lutando um com o outro na noite anterior a uma das seções de exorcismo de Júlia. Ela encontrou uma maneira de alcançá-lo mesmo quando não estava com ele, segundo ele conta.
Em uma ocasião, ele estava falando ao telefone em uma noite com o padre de Julia, então ele conta que ambos ouviram ao telefone uma das vozes demoníacas que vociferava através da boca de Julia durante seus transes, embora ela estivesse a milhares de quilômetros de distância e não estivesse perto de um telefone. Ele diz que nunca teve medo, no entanto, reconhece ser algo assustador de se ver, mas quanto a isso ele apenas responde que acredita estar do lado vencedor.
Como um cientista acredita em demônios?

“Sempre que preciso de ajuda, eu o procuro. Ele é muito respeitado em campo, não é como a maioria dos terapeutas, que são ateus ou agnósticos…” Diz o reverendo Gary Thomas, um dos exorcistas mais famosos dos Estados Unidos. O filme “The Rite” foi baseado em seu trabalho.
Dr. Gallagher é categórico em dizer que está do lado da ciência e se diz um defensor do método científico, que ensina as pessoas a seguir os fatos onde quer que eles o levem.
Tendo crescido em uma grande família católica irlandesa em “Long Island”, ele não pensava muito sobre histórias de possessão. Mas quando ele continuou vendo casos como o de Júlia como profissional, ele sentiu que suas opiniões precisavam evoluir.
“Eu não acredito nessas coisas por ter sido criado em uma família católica, eu acredito porque tento seguir as evidências…”
O Dr. Gallagher cresceu em um lar onde a fé era levada a sério. Seu irmão mais novo, Mark, diz que Dr. Gallagher era um prodígio acadêmico com memória fotográfica, que queria usar sua fé para ajudar as pessoas. A mãe era dona de casa e o pai um advogado que lutou na Segunda Guerra Mundial.
“Tivemos uma infância sensacional, minha mãe e meu pai sempre foram ótimos para ajudar os vizinhos ou parentes. Meu pai costumava nos levar orgulhosamente para a igreja. Ele nos ensinou a retribuir…”
Essas foram as duas maneiras que o generoso Dr. Gallagher encontrou de retribuir o bem alcançado em sua vida, ajudar os doentes mentais e também os possuídos.
As religiões cristãs contemporâneas não veem a fé e a ciência como contraditórias. Seus líderes insistem que existem possessões, milagres, anjos e demônios. Nada deve ser desprezado, mas estudado e documentado com o rigor científico, a fim de que as opiniões e pensamentos da comunidade científica evolua e possam no futuro entender e explicar como funcionam tais fenômenos.
Dr. Gallagher diz que o conceito de possessão demoníaca não se limita ao catolicismo. Os evangélicos, as tradições muçulmanas, judaicas e outras religiões ligadas ao cristianismo, consideram a possessão por espíritos malignos como possível.
“Isso não é tão esotérico quanto algumas pessoas fazem parecer, eu conheço alguns psiquiatras e profissionais de saúde mental que também acreditam nessas coisas…”
A ciência e a fé…
Amigo do Dr. Gallagher, o Dr. Mark Albanês está entre eles. Ele estudou medicina em “Cornell” e pratica psiquiatria há décadas. Em uma carta à “New Oxford Review”, uma revista católica, ele defendeu a crença do Dr. Gallagher na possessão.
Ele também diz que há uma crença cada vez maior entre os profissionais de saúde de que a dimensão espiritual do paciente deve ser levada em consideração no tratamento, quer seu provedor concorde com essas crenças ou não. Alguns psiquiatras até falaram em adicionar um diagnóstico de “transtorno de transe e possessão” ao DSM, o principal manual de diagnóstico de transtornos usado por profissionais de saúde mental nos Estados Unidos.
Ainda há muito sobre a mente humana que os psiquiatras não sabem, segundo afirma Dr. Albanese. Os médicos costumavam ser amplamente céticos em relação às pessoas que afirmavam sofrer de múltiplas personalidades, mas agora é um transtorno legítimo (transtorno dissociativo de identidade). Muitos ainda estão pasmos com o poder dos placebos, uma pílula inofensiva ou procedimento médico que produz a cura em alguns casos.
“Há uma certa abertura para experiências que estão acontecendo além do que podemos explicar por ressonâncias magnéticas, neurobiologia ou mesmo teorias psicológicas”. Afirma Dr. Albanese.
O Dr. Jeffrey Lieberman, um psiquiatra especializado em esquizofrenia, chegou a uma conclusão semelhante depois de ter uma experiência assustadora com um paciente. Ele foi convidado a examinar a fita de vídeo de um exorcismo que ele posteriormente descartou como não convincente, até ele conhecer uma mulher que, ele afirma tê-lo assustado de fato.
Ele que é diretor do “Instituto Psiquiátrico do Estado de Nova York”, foi convidado juntamente com um terapeuta familiar e foram examinar uma jovem que alguns pensavam estar possuída. Ele e seu colega tentaram tratar a mulher por vários meses, mas desistiram porque não tiveram sucesso.
Porém, algo aconteceu durante o tratamento que ele ainda não consegue explicar. Depois das sessões com a mulher, segundo ele, ao voltar para a casa à noite, as luzes de sua casa se apagavam sozinhas, fotos e obras de arte caíam ou escorregavam das prateleiras e ele sentia uma dor de cabeça lancinante. Ao mencionar esses eventos a seu colega, o mesmo que esteve com ele nesse atendimento, ele ficou muito surpreso com a resposta, pois seu colega afirmou estar passando exatamente pelas mesmas experiências.
“Tive que admitir, eu não sabia realmente o que estava acontecendo. Devido aos eventos bizarros que ocorreram, eu não afirmaria que uma possessão demoníaca é impossível, não a descartaria categoricamente. embora eu tenha evidências empíricas muito limitadas para verificar sua existência…” Disse Dr. Jeffrey Lieberman.
Embora existam outros cientistas e médicos como o Dr. Lieberman, dispostos a admitir a possibilidade da possessão demoníaca, por outro lado é notório que a maior parte deles são muito cautelosos ao legitimar esse fato e isso se deve a um caso muito famoso, o de Anneliese Michel.
O caso Anneliese Michel…

Anneliese foi vítima de um dos casos mais notórios de exorcismo contemporâneo. Ela era uma católica alemã que morreu de fome em 1976, após sessenta e sete exorcismos durante um período de nove meses. Ela foi diagnosticada com epilepsia, mas acreditava que estava possuída. O mesmo fizeram seus devotos pais católicos romanos. Ela teria mostrado alguns dos sinais clássicos de possessão como força anormal, aversão a objetos sagrados, falar línguas diferentes e etc.
No entanto, anos mais tarde, as autoridades determinaram que foram os pais de Michel e dois padres os responsáveis por sua morte. As autoridades alemãs os levaram a julgamento por assassinato e eles foram considerados culpados de homicídio negligente. O filme de 2005 “O Exorcismo de Emily Rose” foi baseado neste caso.
Ao ser criticado e questionado por alguns de seus colegas céticos sobre o porquê de não existirem provas documentadas como fotos e vídeos, Dr. Gallegher diz que os demônios não se submetem a estudos de laboratório ou permitem que sejam facilmente gravados por equipamentos de vídeo. Eles querem semear dúvidas, não confirmar sua existência, diz ele. A igreja também não comprometerá a privacidade de uma pessoa que sofre de possessão apenas para fornecer um filme aos céticos. Gallagher diz que vê seu trabalho com os possuídos como uma extensão de suas responsabilidades como médico. Ele diz que é dever do médico ajudar as pessoas em grande aflição, sem se preocupar se elas têm condições discutíveis ou controversas.
Gallagher não é o primeiro psiquiatra a sentir esse dever. O Dr. M. Scott Peck, o falecido autor de “The Road Less Traveled”, conduziu ele mesmo dois exorcismos, algo que o Dr. Gallagher considera imprudente e perigoso para qualquer psiquiatra.
O que aconteceu com Júlia, a possuída?
Ele pode não ter pedido para se juntar ao mundo “oculto” do exorcismo, mas hoje é parte integrante dessa comunidade. Ele apareceu em histórias e documentários sobre exorcismo e faz parte do conselho administrativo da “Associação Internacional de Exorcistas”, com sede em Roma.
Ele diz que recebeu agradecimentos de muitas pessoas que ajudou ao longo dos anos. Alguns choraram, gratos a ele por não considerá-los delirantes. Quanto a permitir que um jornalista fale com qualquer uma dessas pessoas, Dr. Gallagher diz que zelosamente protege sua privacidade. Júlia, no entanto, deu-lhe permissão para contar sua história que não teve um final feliz.
Ele e uma equipe de exorcistas continuaram a vê-la, mas por fim ela interrompeu as sessões. Ela era muito ambivalente. Ela saboreou algumas das habilidades que exibiu durante seus transes. Ela estava “jogando dos dois lados”.
“O exorcismo não é algum tipo de encantamento mágico. Normalmente, uma pessoa tem que fazer seus próprios esforços espirituais sinceros também…” Diz Dr. Gallegher.
Cerca de um ano depois que ela desistiu, ele ouviu a voz de Júlia ao telefone novamente. Desta vez, ela ligou para dizer a ele que estava morrendo de câncer. Dr. Gallagher diz que se ofereceu para tentar ajudá-la com uma equipe de padres enquanto ela ainda era fisicamente capaz, mas ela disse a ele que iria pensar um pouco. Depois disso, ele conta que nunca mais ouviu falar dela.
Inevitavelmente, haverá outros. Seu telefone vai tocar. Um padre ou um pastor vai lhe contar uma história. Uma equipe de clérigos e freiras será convocada. E o homem da ciência entrará no mundo oculto do exorcismo novamente.
Os críticos, as almas que não são salvas, os encontros assustadores não parecem detê-lo.
“Exorcistas verdadeiramente informados não tendem a ficar desanimados, porque eles sabem que é nosso Senhor quem livra a pessoa, não eles próprios…”
Nos próximos posts dessa série, conheça o árduo trabalho dos demonologistas e sua vida dedicada a salvar outras pessoas de ataques demoníacos…